Resenha – Johnny vai à guerra
por Patricia
em 08/01/18

Nota:

“Johnny vai à guerra” foi publicado originalmente em 1939 nos Estados Unidos. Apesar de ter sido publicado no mesmo ano em que a 2a Guerra Mundial estourou (de fato, o livro saiu 10 dias antes do pacto nazi-soviético e dois dias depois do início “oficial” da Guerra), o livro tem como pano de fundo a 1a Guerra (1914-1918).

Em “Johnny vai ‘a guerra” Trumbo nos apresenta a Joe Bonham, jovem de uma família pobre do Colorado. Sua vida consiste de buscar empregos que o ajude a engrossar o orçamento da família, principalmente quando seu pai morre deixando ela, a mãe e as irmãs mais novas. Aprenderemos sobre a vida de Bonham no Colorado em flashbacks, apenas. Porque, agora, o soldado está se recuperando de ferimentos gravíssimos.

Em um hospital não se sabe onde, ele acorda com dores em todo o corpo. Devagar, ele começa a perceber que seu corpo não é mais o mesmo: ele teve ambas as pernas e ambos os braços amputados. Mas isso não foi tudo. Trumbo coloca o leitor dentro da cabeça de Bonham – acompanhamos o soldado reagir a seu atual estado, suas memórias de antes da Guerra e suas tentativas frustradas de se comunicar – porque ele perdeu também parte do rosto, basicamente. O que antes era uma jovem promissor, com toda uma vida pela frente, virou um naco de homem, um pedaço de carne que não consegue nem se comunicar com o mundo para dizer nem mesmo seu nome.

Quando entendemos o atual estado do soldado, é inevitável perguntar “valeu a pena?”. E é aqui que Trumbo nos quer. Ele guia o leitor o tempo todo para questões crucias em tempos de guerra:

Morrer não tem nada de nobre. Mesmo que você morra pela honra. Mesmo que você morra como o maior herói que o mundo conheceu. Mesmo que você seja tão grandioso que seu nome jamais venha a ser esquecido mas quem é assim tão grandioso? A coisa mais importante é a vida de vocês seus zés-ninguém. Mortos vocês não valem nada a não ser nos discursos. Não deixem mais que eles os enganem. Não deem atenção quando lhes derem tapinhas nas costas e disserem venham precisamos lutar pela liberdade ou qualquer outra palavra porque sempre tem uma palavra. (pág. 120)

São trechos como este, que permeiam o livro inteiro, que fizeram com que Trumbo fosse visto como uma voz anti-guerra na época e fez com que seu livro fosse banido algumas vezes nos Estados Unidos. Dada sua data de publicação, o livro viu não uma, mas três guerras: a 2a Guerra Mundial (1939-1945), a Guerra da Coréia (1950-1953) e a Guerra do Vietnãm (1955-1975).

O título do livro em inglês – “Johnny got his gun” – vem de uma expressão comum do exército na época de recrutamento de jovens no começo da década de 1910: “Johnny get your gun” – algo como “Johnny pegue suas armas”. O título de Trumbo traduzido literalmente “Johnny pegou sua arma” quase pode ser precedido de um “e daí?”. O nome Johhny – ou Joe – é usado por políticos até hoje para denominar o “homem comum” (Average Joe ou Regular Joe) – imagem usada constantemente para que políticos falem, ou tentem falar, diretamente com uma parcela da população que não tem alto capital político. No Brasil seria algo como o “Zé da esquina”.

Ou seja, são os homens simples, os trabalhadores, os mais necessitados que normalmente são convocados e pressionados pela honra para assumir uma guerra que mal conhecem ou pela qual não se interessariam de outra maneira. Além disso, o autor questiona – através da raiva contida de seu soldado caído – o que é realmente esse recrutamente ao exército e até onde ele seria justo.

Pensou aqui está você Joe Bonham deitado como um pedaço de carne pelo resto da vida e para quê? Alguém lhe deu um tapinha no ombro e disse venha comigo garoto você vai para a guerra. E você foi. Mas por quê? Em qualquer outra negociação mesmo na compra de um carro ou na realização de uma tarefa você tinha o direito de perguntar o que eu ganho com isso? Caso contrário você iria comprar carros ruins por muito dinheiro ou cumprir tarefas estúpidas de graça e morrer de fome. Era um dever consigo mesmo que quando alguém dissesse venha aqui garoto faça isso ou faça aquilo você se aprumasse e perguntasse olha aqui senhor porque devo fazer isso para quem vou fazer isso e o que ganho no final? Mas quando um sujeito chega e diz venha comigo e arrisque sua vida e talvez morra ou fique aleijado ora bolas você não tem direito algum. Não tem sequer o direito de dizer sim ou não ou vou pensar. Há uma porção de leis para proteger o dinheiro das pessoas mesmo em tempo de guerra mas não há nada na legislação dizendo que a vida de um homem pertence a ele e a mais ninguém. (pág. 112)

Todo esse questionamento sobre as intenções do Governo, além de uma quedinha pelo Partido Comunista dos EUA,  colocaram Trumbo na lista negra de Hollywood. Por isso, durante a Guerra da Coréia, o autor comprou as chapas do livro e evitou que fossem vendidas com medo de que a história fosse usada contra ele e de uma maneira equivocada (ele já havia sido investigado pelo Governo antes por causa da obra). De fato, ele foi perseguido tão intensamente que passou a usar um pseudômino para assinar os roteiros que escreveu depois do lançamento de Johnny.

Com o fim da lista negra Trumbo teve uma longa carreira em Hollywood, com sucessos como Spartacus e Exodus (1960), além de finalmente ter a liberdade de, ele mesmo, adaptar Johnny para o cinema em 1971. Em 2015, Trumbo, o filme, estrelando Bryan Craston (de Breaking Bad) e inspirado no livro homônimo de Bruce Cook foi lançado relatando a vida do autor e roteirista.

Pelas citações é possível perceber que Trumbo não é adepto de pontuações excessivas. Aliás, não tem um travessão de diálogo no livro e tudo é escrito em texto corrido. O que isso faz é criar frases que parecem ditas sob um fôlego só como se Bonham, ou Trumbo, mal conseguissem conter certos pensamentos e idéias. Quando nos acostumamos com o estilo do autor, a sensação que fica é de um aprisionamento na mente de Bonham que chega a ser, em certas cenas, sufocante. Ou seja, o autor traduz muito bem o que o soldado está sentindo e transporta o leitor a esse momento toda vez.

“Johnny vai à guerra” é um livro anti-guerra. Mas também é um livro que questiona o tipo de governo e os discursos políticos que ouvimos o tempo todo. Liberdade, democracia e guerra se tornam cada vez mais palavras soltas em um vocabulário que parece desenhado para nos ludibriar para o que importa realmente: nossa vida, nossos desejos e nossas próprias idéias. Sob esse prisma, Trumbo nos deixou com uma obra atemporal que seguirá trazendo questões que poucos políticos ousam responder.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Johnny vai à guerra”


 

Comentar