Resenha – José
por Thiago
em 19/08/15

Nota:

e agora josé

 

O interessante deste texto é que não era pra ser uma resenha, foi um estalo que me deu e acabei postando no Facebook. Depois, conversando com o Ragner (que também já resenhou um poema aqui. O incrível “Poema em linha reta” de Fernando Pessoa) , acabou virando o que segue abaixo.

Este é o segundo poema que resenho no Poderoso, o primeiro foi “Se”, do Rudyard Kipling. Primeiro quero ressaltar que não é minha intenção fazer uma análise acadêmica ou mesmo séria do poema ou de Drummond. Quero aqui compartilhar impressões e sensações, nada mais que isso.

Então vamos lá:

O legal de envelhecer é de repente entender algum texto que sempre te acompanhou. Sempre li esse poema de Drummond, afinal, leva meu nome. Não Thiago, mas José. Meus amigos de longa data me conhecem como Zé,  a grande maioria nem sabe que me chamo Thiago José, desconhecem o Thiago ou o Zé, Thiago Franco então, não fazem nem ideia de quem é.
Quando criança minha mãe leu pra mim essa poesia e fiquei encantado. Não fez sentido nenhum, nem podia, mas agora faz, agora entendi.

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

 

Quando li este texto pela primeira vez, o achei tão forte, tão bonito, mas nem as palavras entendia. Só sei que cada vez que lia me identificava mais e mais com esse José.

Em algumas análises de estudiosos se diz que a escolha do nome José, um nome comum, foi feita pra passar uma ideia generalista, podendo servir pra qualquer um. Outras análises dizem que poderiam ser Drummond conversando com Drummond. (Não, não vou colocar citações ou nomes de acadêmicos que analisam Drummond. Não vou me referendar, li algumas coisas e pronto, o resto veio do meu suvaco mesmo).

O interessante quando textos passam a fazer sentido, ou mudam de sentido dentro da nossa cabeça e coração é que o mundo muda um pouco. Afinal, as coisas só podem fazer outro sentido porque mudamos, e neste momento o mundo muda, o nosso mundo altera gradualmente seu eixo.

José é como todos nós, cheio de problemas. A partir disso Drummond nos ganha e nos torna empáticos com o protagonista dos versos. Sabe, a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. José se percebe sozinho, e agora? Sozinho com ele mesmo, meio perdido, privado. Sem mulher, sem carinho, sem discurso e antes de tudo isso, sem nome, ou seja, sem identidade. Sem a bengala dos vícios, cigarro e bebida, sem ter pra onde fugir. Afinal, o bonde não veio, o riso não veio, as coisas meio que perderam a graça, a  cor, nem alguma utopia pra aplacar o coração lhe resta.

José em meio a solidão, precisa se encarar. Tudo acabou, tudo fugiu, tudo mofou. Pobre José, tem de encarar seus monstros, demônios internos. Seguir as importantes palavras que se encontram no oráculo de Delfos, na antiga Grécia: “Conhece-te a ti mesmo”.

José se vê acuado, mas quem é José? Nem identidade ele têm. José enfrentando a solidão, sem as máscaras sociais, está consigo. Entretanto não gostaria de estar, ou apenas não sabe o que fazer diante da situação. Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta, quer morrer no mar, mas o mar secou, quer ir pra Minas, Minas não há mais.

Diante das negativas da situação, das impossibilidades momentâneas, José com seu interlocutor procura alguma possibilidade, algum se que lhe sirva: se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse…

Muitas vezes não sabemos o que fazer, a vida parece terrível. Quando a opção que temos é encarar nossos monstros, nossos medos de frente, como em uma análise psicanalítica, aprofundando-se no inconsciente como diria Jung, meditando, rezando, fazendo a mística caminhada de Santiago de Compostela. Quando a opção que temos somos nós mesmos. O caminho é sem dúvida árduo, sendo assim a pergunta que fica sempre: E agora José?

Há a vontade de parar, o cansaço nas pernas de tanto caminhar e tatear no escuro, a vontade de morrer, mas nosso José não morre, nosso herói é duro. Tão duro que sozinho no escuro, qual bicho do mato, sem teogonia (quando pequeno essa palavra me intrigava, mas não queria procurar seu significado. Pra quem não sabe se trata de um poema do grego Hesíodo, sobre a origem dos deuses.), sem parede nua pra se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, José permanece marchando. Porém, pra onde?

Pra onde vai José? Será que ao menos ele sabe? Será que foge? Será que encara a batalha dos conflitos externos? Voltou pra Minas? Não há mais Minas (droga).

Este poema não é revelador quanto ao ponto de chegada de José, mas nos mostra que ele caminha, sozinho marcha. Talvez possamos concluir assim que o caminho ou o caminhar, importa e transforma mais que o ponto de chegada. Talvez fale apenas da solidão.

Talvez eu tenha interpretado tudo errado, mas e daí? Um poema depois de posto a leitura do outro não é por inteiro daquele que o escreveu, é também daquele que o lê e interpreta e sente.

Boa poesia a todos!!

 

carlos drumond

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2 Comentários em “Resenha – José”


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Byaalmeyda em 11.08.2019 às 21:44 Responder

Adorei sua resenha, para mim fez muito sentido cada palavra lida , obrigada 🙂

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Luzete Inês de lima em 07.10.2019 às 10:29 Responder

Eu sou fã desse poema por incrível q pareça assim q aprendi a ler quando criança conhece esse poema e me apaixonei eu sempre lia. Tinha nos livros da escola teve um época q eu até decorei ele. eu lia para todo mundo e agora q tenho meus filhos um de 9 e um de 4 já estava comentando sobre esse poema q eu amava tanto até q resolvi procurar ele aq na internet nem imaginava q ia encontrar . Bom encontrei e acabei de ler ele para meu filho mais velho. Espero q ele tbm goste tanto quanto eu . E isso obrigado.


 

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