Resenha – K.
por Patricia
em 27/06/16

Nota:

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Em Abril de 2014, no aniversário de 50 anos do golpe que nos levou à Ditadura, me dei o desafio de ler apenas livros e assistir filmes e documentários sobre esse tema. Ao final da resenha de A Ditadura envergonhada, há uma lista de outras resenhas que seguem a mesma temática. Confesso que foi um mês difícil. Entre entender melhor as questões políticas e ler relatos sobre as mortes causadas pelos militares, qualquer pretensão que eu tinha de passar incólume pelo mês, esvaiu-se. O que era apenas um desafio, abriu meus olhos para algo muito maior e, claro, muito pior do que eu poderia ter imaginado.

A importância de obras que falam dessa época é justamente dar voz àqueles que perderam a vida e ampliar o contexto desse momento na História. Hoje é impossível dizer que não houve tortura e coisas piores nos 40 anos de Ditadura Militar sem parecer um verdadeiro ignorante alheio à realidade. A beleza de não termos a censura explícita que havia na época – apesar de ela ainda existir em alguns níveis – é justamente termos à disposição mídias das mais diversas que jogam luz onde antes só havia sombras.

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Ler K. foi uma experiência diferente de ler outros livros sobre a Ditadura. K. é um senhor de idade, dono de uma loja de roupas no Bom Retiro em São Paulo – bairro com grande número de judeus refugiados da Europa por causa da Guerra (caso do próprio K. que chegou a ser preso na Polônia). Depois de 10 dias sem notícia de sua filha,  ele vai procurá-la em lugares conhecidos. Ana dava aulas de Química na Universidade de São Paulo e tinha um fusca azul. Parecia ser tudo o que seu pai sabia. A cada dia da busca, porém, ele vai descobrir que a filha levava uma vida dupla.

O ano é 1974. Apesar de sinalizar uma possível abertura no futuro depois dos anos de chumbo sob Médici, os militares já tinham 10 anos de prática em tortura, assassinatos e sumiço de corpos. K. descobre que Ana Rosa poderia ser membro de uma guerrilha e, nesse caso, corria o risco de ter sido presa – o que abria opções bem piores do que poderia ter acontecido com ela. Ele descobre também que ela havia se casado já há 4 anos – nunca soube que tinha um genro. Ana Rosa sumiu junto com seu marido sem deixar rastros.

Começa uma busca incessante que o levará da Anistia Internacional em Londres, passando pela Cruz Vermelha em Genebra até a American Jewish Committe em Nova York onde K. implora por ajuda para fazer o Governo Brasileiro explicar o que havia acontecido com sua filha. As respostas eram vagas e desonestas, como era de se esperar. E K. começa a entender a real dimensão dos horrores da Ditadura.

Sabemos o que acontece com Ana Rosa antes de seu pai. O autor alterna os capítulos em que K. busca a filha com pontos de vistas variados: temos Ana, seu marido Wilson, um bandido menor que nunca diz seu nome mas narra as ações do fatídica dia do desaparecimento do casal, até mesmo o notório torturador Sérgio Fleury e sua amante ganham um capítulo. É excruciante sabermos antecipadamente o que esse pai vai encontrar. Esses capítulos que alternam com a visão de K. são o senso de ficção do livro que ganha ainda mais profundidade quando descobrimos que Ana Rosa foi, de fato, irmã do autor.

Na falta de informações reais que poderiam ajudar a família a sair do período de negação pela morte de Ana Rosa, o autor completa os buracos da história com sua própria imaginação.

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K. foi publicado em 2013 e o autor e jornalista tem uma vasta experiência em ciências políticas e exilou-se em Londres quando o golpe militar aconteceu. Retornou ao país em 1974 – ano do desaparecimento de Ana Rosa. Dia 28 de Junho, sai a sequência de K. intitulada Os visitantes. Na obra, cada capítulo é narrado por alguém que foi tirar satisfação com o autor por causa de K. Uma premissa bem intrigante.

K. é um livro que nos apresenta a Ditadura de um ponto de vista diferente – similar ao que o filme Zuzu Angel faz: coloca o foco na busca mais do que nas ações dos filhos para nos mostrar que torturados também foram os familiares dos que sumiram na máquina da Ditadura. Enquanto relatos diretos, como Noite em que Elie Wiesel narra sua experiência em Auschwitz, são importantes para sabermos exatamente o que acontece atrás das portas da tragédia, obras como K. nos mostram que a tragédia é muito maior do que podemos imaginar à primeira vista. Quem fica para trás, carrega o peso da perda com a culpa para o resto da vida. O autor, de fato, dedica um capítulo a explicar como a culpa é um componente destrutivo para aqueles que sobrevivem em situações como essa.

Enquanto K. busca a filha que conhecia, ele acaba conhecendo-a melhor – um paradoxo que aumenta o drama da história. Além disso, a mistura de realidade e ficção também injetam mais força no enredo. Como escreve Renato Lessa em sua resenha para a Revista Ciência Hoje e que fecha o livro: “Apesar da força arrebatadora da matéria que lhe deu origem, o leitor em momento algum terá a ilusão de que não se trata de literatura. A tensão entre testemunho/denúncia e literatura fica bem posta – e esclarecida – já na advertência feito pelo autor na abertura do livro ‘Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu’.”

Obra essencial.

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