Resenha – Kindred
por Patricia
em 05/03/18

Nota:

“Kindred” foi lançado originalmente em 1979 por Octavia E. Butler que ficou conhecida em sua época como “A Grande Dama da Ficção Científica”. Não posso atestar se o título está correto pois esta foi minha primeira experiência lendo algo da autora e, apesar de ter gostado da história e da conduçaõ do enredo, ainda quero conhecê-la melhor sabe, antes de termos essa intimidade. 😉 No Brasil, o título original se manteve com o subtítulo “Laços de sangue”.

No livro, conhecemos Dana que está se mudando com seu marido Kevin para uma nova casa. Ambos são escritores, Kevin já alcançou um certo nível de sucesso e Dana está tentando emplacar sua carreira. Enquanto organizam a casa, Dana se sente mal e desmaia. Mas para Kevin ela não apenas desmaia, ela desaparece. Dana acorda em mil oitocentos e alguma coisa, próximo a um rio. Quando consegue entender o que está acontecendo, ela nota que uma criança está se afogando e a mãe grita desesperada por ajuda. Dana salva a criança e quando pai do menino chega, só consegue notar a arma apontada para ela antes de desmaiar de novo.

Agora, ela acorda em sua casa como se nada tivesse acontecido. De acordo com Kevin, ela ficou fora apenas alguns segundos e voltou em outro lugar da casa. Enquanto tentam entender o que está acontecendo, Dana desmaia de novo. Dessa vez, ela acorda dentro de uma casa com um menino ruivo colocando fogo nas cortinas de seu quarto. Ela rapidamente se livra do fogo e salva o menino que, ela percebe, é o mesmo que viu se afogando no rio. Porém, enquanto para ela se passaram apenas alguns minutos, para ele foram anos.

Dana entende que está se locomovendo em torno de mais de 100 anos no tempo, indo para mil oitocentos e algo e voltando para 1976 – o ano em que vive. Cada vez que retorna, o jovem que ela salva e que se chama Rufus, está mais velho. Ela decifra a ligação entre eles e entende que ele, de alguma forma, a convoca sempre que está em perigo. Parece que o trabalho dela é salvá-lo de si mesmo na maior parte das vezes.

Seria apenas um livro comum de viagem no tempo se Butler não tivesse tido uma sacada interessante: Dana é negra. Kevin é branco. Em 1976, o relacionamento deles poderia virar algumas cabeças – o casamento inter-racial fora legalizado menos de 10 anos antes, em 1967 – mas nada os poderia preparar para o que aconteceria.

Na 3a viagem de Dana, Kevin estava abraçado com ela e acabou indo junto. E se em 1976 tudo parecia normal, isso era bem distante do cenário no qual chegaram. A escravidão estava no auge e uma negra nunca poderia ser esposa de um branco. Dana teve que fingir que não só era escrava como também que pertencia a Kevin. Quando as coisas dão errado, Kevin deverá sobreviver naquele mundo por 5 anos quando dana não consegue trazê-lo de volta imediatamente.

Um ponto que sempre volta à tona no livro é a violência. Os temores da escravidão, claro, existiram graças a uma violência constante e a um cenário de medo. Mas há mais do que isso aqui. Dana se aproxima de algumas escravas e uma delas, Alice – com quem ela tem uma relação especial – é o objeto de afeição de Rufus. Veja, ele a ama mas não pode amá-la porque ela é uma escrava. Ele também é um homem do seu tempo e não se importa em ser correspondido. Se ele pode forçá-la ao que quer, então seu mundo segue da mesma forma.

Rufus e Dana têm uma relação estranha. Ao mesmo tempo em que ela reconhece que ele é, sim, um homem de seu tempo acostumado com a violência e mesmo quando isso chega até ela de uma forma muito direta, ela continua chamando-o pelo carinhoso apelido de Rufe, humanizando um homem que não demonstrava muita humanidade. Até onde “sou um homem do meu tempo” serve de desculpa é uma discussão que ainda está em voga em tempos de José Mayers da vida usando esse argumento para se safar de assédios e abusos.

Usando o componente de viagem no tempo da ficção científica, a autora nos permite experimentar algo que realmente aconteceu sob um ponto de vista de uma pessoa tão alheia a isso quanto nós. Apesar de ter descendentes que ela sabia que foram escravos, em 1976, Dana não pensa nisso todos os dias. Repetidas vezes no livro ela diz que não sabe se foi feita para sobreviver a tudo o que seus ancestrais sobreviveram.

A leitura de “Kindred – Laços de sangue” flui muito bem. A construção da história é muito boa e os capítulos curtos ajudam a manter um certo nível de mistério. Butler conduz a história de maneira muito eficiente e dado o peso do tema, confesso que não consegui largar o livro até terminar pois não podia parar de pensar no que iria acontecer. Definitivamente, Octavia E. Butler estará em listas futuras de leitura.

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