Resenha – Leonardo da Vinci
por Thiago
em 22/01/18

Nota:

Uma das coisas que mais gosto de ler são biografias e já tem um tempo que quero ler algo escrito por Walter Isaacson, autor do livro resenhado aqui e de outras como as de Einstein, Benjamin Franklin e Steve Jobs. Além disso, Isaacson foi presidente da CNN e editor da TIME, mas o que mais me levou a querer ler algo dele, e principalmente este livro, é a fama de Isaacson de ser um pesquisador de profundidade. Neste caso, ele e sua equipe analisaram, além das diversas biografias já lançadas sobre Da Vinci, os próprios diários do artista, 30 diários no total.

Como nos mostra Isaacson, Da Vinci tinha o costume de andar sempre com um caderninho e anotar tudo o que lhe passava à mente e nestes cadernos se encontram listas de compras, de afazeres, projetos, ideias, cartas, resmungos, estudos, contabilidade; sendo que nenhum pedaço de papel ficava em branco, papéis eram caros e difíceis de encontrar naquela época.

O livro editado pela nossa parceira Intrínseca tem ao todo 634 páginas e, dentre elas, diversas ilustrações incríveis e indispensáveis para a compreensão do texto, sendo todas em cores e em boa definição. É uma obra que vale a pena ter, principalmente se você desenhar, pintar, trabalhar de alguma forma com arte ou mesmo for um grande admirador. Digo isso pois uma boa parte do livro é bem específica em relação as técnicas utilizadas por Da Vinci para pintar, esculpir e estudar o que faria. Confesso que por muitas vezes essas partes, que estão espalhadas por todos os capítulos do livro, foram maçantes pra mim, mas mesmo assim acabei gostando, pois demonstra muito bem a maneira de Leonardo pensar e perceber o mundo à sua volta.

Entendam, o ponto levantado no parágrafo anterior não é negativo ou positivo, é apenas uma característica do livro, e que, pelos materiais de consulta utilizados pelo pesquisador, faz todo sentido constarem na composição do livro. Temos assim uma aula sobre como analisar uma obra de arte, prestar atenção em detalhes e Da Vinci era um cara dos detalhes, em tudo.

O livro desmistifica Da Vinci sem desmerecer sua genialidade, o que é algo extremamente difícil, afinal estamos falando de alguém completamente diferente das pessoas de sua época, além de existirem diversos mitos acerca dele, o que complica muito as coisas. Talvez hoje ele não teria espaço para deixar sua genialidade aflorar, talvez se tornasse um acadêmico, ou alguém mais ligado ao teatro, se nascesse no Brasil talvez virasse carnavalesco. Parece bobo o que digo, mas Da Vinci trabalhou na organização de eventos, decorando e elaborando maquinários para permitir determinados efeitos em cenas teatrais.

Nesta desmistificação somos apresentados a um Leonardo mais humanos, alguém com algo similar a um déficit de atenção, e como vários de nós, alguém que tem diversas ideias e projetos que nunca saem do papel. Se você já abandonou coisas assim, sonhos, ideias, desistiu, perdeu o interesse na aula de piano, largou o judô, a aula de alemão ou aquele empreendimento com cara de roubada, imagine as coisas que Da Vinci começou e deixou de lado? Talvez hoje estaria entupido de remédios para TDH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), e seus pais o forçariam a ter foco e deixar sua fértil imaginação de lado.

A grandeza de Da Vinci se dá em diversas formas, sem dúvida nas pinturas e sua noção de movimento, mas o livro me mostrou um lado diferente: sua genialidade enquanto pesquisador; sua curiosidade e formas de ir além em suas pesquisas, nos mais variados temas, nas artes, na engenharia, nas estratégias de batalha, na anatomia humana, na matemática são sua grande herança. Estamos falando de um homem homossexual, herético e vegetariano, que se vestia com roupas rosas e brilhantes e sem papas na língua, mesmo com os que detinham o poder.

Esta biografia tem um ponto positivo muito importante: a contextualização histórica. Não podemos compreender um personagem tão diferente da história sem entender o período conturbado em que viveu, o renascimento. Da Vinci é fruto desta época. A ideia de buscar ler o mundo através da razão, perceber que a observação da natureza somada a sua razão, mesmo para alguém sem educação formal, o faria capaz de decodificar o que há envolta. Podemos entender este pensamento com dois simples exemplos, uma pergunta encontrada em seus diários na qual questionava o que levava o céu ser azul. Você já teve essa curiosidade e procurou a resposta? Hoje basta jogar no google e com poucos cliques terá sua resposta, agora imagine na época de Da Vinci.

Outro exemplo interessante é o estudo anatômico que fez de um cavalo quando estava trabalhando em uma enorme estátua do animal, uma importante encomenda; ou mesmo seus estudos sobre a anatomia humana. Leonardo desenhou órgãos e elementos dos sistemas anatomofuncionais do corpo humano em um estudo que começou pela leitura das obras de autores da medicina pré-renascentista. Ele também participou de dissecações do corpo humano e de diversos animais. Porém, jamais terminou e publicou a obra que, segundo pesquisadores, poderia ter revolucionado a medicina mais de 20 anos antes que o belga Andreas Vesalius, considerado o “Pai da Anatomia”, publicasse seu livro “De Humani Corporis Fabrica”, em 1543, que marcou a fase inicial dos estudos modernos sobre anatomia. Com estes estudos Da Vinci ultrapassou o conhecimento dos artistas de sua época, através da observação das dissecações.

Dou 4 doses de café pra este livro que me fez ver com outros olhos uma figura que sempre admirei, tiro uma dose de café apenas pela morosidade da leitura.

Boa leitura a todos!!

 

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O livro foi envido pela editora. 

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