Resenha – Levantado do Chão
por Gabriel
em 24/01/15

Nota:

Levantado do Chão

José Saramago é sempre algo totalmente à parte dos reles mortais. Levantado do Chão é seu terceiro romance, publicado em 1980. O livro foi premiado e aclamado pela crítica à época e marca o estilo que consagraria o autor dois anos mais tarde, com Memorial do Convento.

Nesta obra, Saramago conta a história de uma família de camponeses portugueses, os Mau-Tempo. Sua saga começa no início do século XX e termina em 1974, na Revolução dos Cravos, que encerrou a Ditadura que existira em Portugal por 41 anos.

Os Mau-Tempo surgem com o seu patriarca, Domingos Mau-Tempo. Um homem que vive entre mudanças de cidade e de bar em bar, dominado pelo alcoolismo e nunca conseguindo realmente se estabelecer no seu ofício de sapateiro. Este homem e sua mulher vivem no latifúndio de Lamberto, nome que Saramago troca conforme a ocasião, por Norberto, Alberto, Gilberto, sempre a representar os poderosos donos da terra. Do casamento de Domingos Mau-Tempo nasce João Mau-Tempo, um garoto que herda os olhos azuis de seu avô desconhecido.

João Mau-Tempo se torna um camponês, trabalha no latifúndio, e a história de sua vida seria totalmente repetitiva não fossem os acontecimentos históricos que se entrelaçam e a habilidade fora do comum de Saramago em narrar qualquer história a seu modo. Com seu consagrado ritmo quase sem pontos finais, intercalando diálogos e pensamentos e comentários do narrador, com uma sequência temporal confusa, o autor nos mostra como os Mau-Tempo tiveram a sua existência marcada, primeiro pelos pequenos embriões de revolta entre os camponeses, e finalmente pela revolução.

O estilo de Saramago ainda não está no estágio refinado que é possível ver em Ensaio Sobre a Cegueira. Mas ainda assim qualquer conhecedor de sua obra é capaz de reconhecer o seu toque marcante em qualquer trecho desta obra. Levantado do Chão é incrível pela própria forma de o autor construir romances, com a história se desenrolando em meio a comentários, como se alguém te contasse algo em volta de uma fogueira. Há momentos em que o estilo é rebuscado demais, é uma leitura que exige atenção; mas a atenção é totalmente recompensada.

O assunto tratado nesta obra também é de impressionar o leitor. A vida dos camponeses, a repetição, a dureza do latifúndio, não deixam de ser um pano de fundo para conflitos que vivemos até hoje. Se Saramago escreveu esta obra ainda sobre a influência do clima de esperança que alguns tinham (e em particular, ele tinha) em relação aos regimes ditos socialistas da época, mesmo assim há lições importantes a se verificar: a relação entre os poderosos e as armas, representadas pela guarda (sempre pautada por trocas de favores e corrupção institucionalizada); o medo dos que “querem entregar o país a Moscou”, sempre usado como argumento para manter as coisas como estão e não questionar nada; e as relações entre Igreja e poderosos e trabalhadores e poderosos. Saramago não poderia ser mais claro em sua mensagem de esperança e de luta, representada pela difícil trajetória dos Mau-Tempo: a batalha por mais liberdade, igualdade e direitos é dura, ingrata, mas vale a pena. Com certeza um item da minha biblioteca definitiva.

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