Resenha – Livro do Disco – David Bowie – Low
por Juliana Costa Cunha
em 08/04/19

Nota:

Como grande fã de David Bowie, fico catando tudo o que sai sobre ele. Para mim o artista está na categoria de gênio. E a cada novo livro que relata sua vida e seu processo criativo, constato mais isso.

Em O Livro do Disco – David Bowie – Low, Hugo Wilcken, australiano e grande fã de Bowie, nos apresenta de forma detalhada o processo para a criação deste disco que foi recebido como estranho e não comercial pela gravadora. Por ela, o disco ficaria no limbo. Porém, fica explícito nas páginas do livro que o disco só foi lançado em função de uma cláusula no contrato que obrigava a gravadora a fazê-lo, independente do material que havia sido produzido.

A fase de elaboração e execução de Low é a mais pesada na carreira de Bowie. Aquele momento onde ele enfiou o pé na jaca no uso da cocaína e passou a ter alucinações persecutórias, manias estranhas, horários loucos de trabalho, forma nada linear de construir a canção. Em várias passagens do livro Brian Eno e Toni Visconti (dois grandes colaboradores que estavam com ele nesta jornada) relatam um processo criativo autista e também desconexo. Mas também ressaltam que, no meio desse caos, Bowie chegava, entregava uma K7 com algumas melodias gravadas aleatoriamente e nisso pedia que os músicos trabalhassem. A partir daí, com uma consistência maior dessa melodia ele rapidamente inseria a letra. Ou modificava o que já havia feito, inserindo outro som, outro acorde, outro ruído.

Low é um disco quase sem canção. E mesmo quando elas existem na música, servem para aprofundar o estanho dela. Isso foi uma das coisas que fez a gravadora torcer o nariz para o álbum. Ser um disco quase sem “voz” também relata muito do momento em que Bowie vivia. O autor fala muito em Bowie procurar a textura musical, a música como paisagem.

Acho que é importante dizer que o livro também salienta que, ao longo de todo o tempo, Iggy Pop esteve com Bowie. E que nesse mesmo período Bowie colaborou na criação do disco The Idiot de Iggy. Ou seja, mesmo no momento mais louco de sua vida, Bowie foi capaz de fazer dois discos ao mesmo tempo. Outra característica dele: estava sempre trabalhando.

The Idiot é um disco tão misturado no fazer entre Iggy e Bowie que o autor relata que muitos não sabem quem fez o que no álbum. Porém, ressalta, foi Bowie quem puxou Iggy do fundo do poço junto com ele e que tinha as ideias iniciais (melodias) para as canções do disco de Iggy, que ficava mais com as letras da música. Ouvir esse disco do Iggy, para quem conhece a obra dos dois artista, é se deparar com muito da forma de Bowie cantar, no mínimo.

Para além das “fofocas” sobre os bastidores do disco, Hugo Wilcken, traz um relato sobre cada faixa, o lado A e o lado B e que já nos apresenta Bowie e Iggy em outro momento da vida. É nesse relato faixa a faixa que nos deparamos com a total influência das bandas alemãs da época, como o Kraftwerker e a Neu! e outros artistas expressionistas de Berlim.

É um disco que tem uma narrativa muito conectada com seu anterior, Station to station e com a trilha sonora do filme O homem que caiu do céu. Filme este que Bowie encena. E que dá a foto de capa para o disco.

Nada, absolutamente nada na obra de Bowie é aleatório. Já li o suficiente para deixar essa afirmação aqui registrada. A cabeça deste homem não parava. O processo criativo dele se misturava com sua vida pessoal. Ou seria o contrário?

Leiam o livro. Ouçam Low. É um disco lindo!

***

Livro enviado pela editora

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