Resenha – Livro do Disco – The Velvet Undergroud and Nico
por Juliana Costa Cunha
em 03/12/18

Nota:

A Coleção Livro do Disco da Editora Cobogó já apareceu por aqui no Poderoso por duas vezes. Uma resenha minha sobre o Refavela, do Gilberto Gil e uma resenha do Bruno sobre o  Daydream Nation, do Sonic Youth. E pelo visto vai virar uma de nossas coleções queridinhas.

Aqui temos o Livro do Disco sobre o álbum The Velvet Undergroud and Nico, da autoria de Joe Harvard. Joe é músico e produtor musical. Um dos fundadores do Fort Apache Studios, reconhecido por produzir discos alternativos a partir de 1980. Logo no início do livro o autor afirma “Não sou crítico. Sou músico, e esta não é uma tentativa de “explicar” o Velvet Undergroud […] Minha intenção é compartilhar algo que acho interessante sobre o disco de estreia do grupo, sobre sua música e sobre o seu modo de criá-la. Por vezes as fontes são confusas […]”. 

E é bem isso que encontramos ao longo das 145 páginas deste livro. Vamos acompanhando os processos criativos e toda a caótica ordem da banda. O famoso disco da banana (em alusão à capa criada por Andy Warhol) hoje é considerado um clássico do Rock. Porém, na época de seu lançamento, foi massivamente desprezado pelo mercado musical. 1967 era o ano do ”verão do amor” e a música do Velvet, tão carregada de letras que davam visibilidade às drogas e ao sexo considerado à época como “desvio de comportamento”, não conseguia espaço nas gravadoras e muito menos nas rádios. Entretanto, as músicas que constam neste disco dão conta de muitas das formas como o rock é tocado desde então.

As letras de Lou Reed eram bastante embasadas em suas leituras e na sua formação em jornalismo. O escritor Raymond Chandler é uma de suas grandes influências. Ambos transformaram a vida marginal, o perverso, o brutal e o belo, em arte. O autor deste livro é da turma que considera a música feita pelo Velvet como uma “exploração de arte”. Entretanto, os temas explorados pela banda faziam com que, aqueles que não aprovavam tais questões, os considerassem lixo sensacionalista.

No livro encontramos muitas referências do autor às pessoas que somaram na história da banda. Ou vice-versa.  Encontramos aqui referências a toda colaboração de Lou Reed a David Bowie, na construção de seu personagem andrógino Ziggy Stardust. Toda influência do Velvet enquanto banda, nas obras do Willie “Loco”, Modern Lovers e Patti Smith, também estão lá.

As músicas da banda não se propunham somente a chocar os ouvintes, “ela tratava da expansão do tema lírico e da permissividade da voz entre os escritores de rock, para além dos temas “confortáveis””. E nisso, o artista e performance Andy Warhol teve papel fundamental. Warhol foi um dos produtores do disco. Era ele que dava à banda toda a liberdade de criação. Considerava o som da banda infinitamente melhor ao vivo e na improvisação e assim queria que o disco saísse. Infelizmente as características de produtor de uma banda e a bagagem necessárias para colocar esta banda na estrada, gravar discos e ser tocada nas rádios não era o forte do artista.

Ao longo do livro vamos percebendo que a participação de Warhol na construção do disco foi desastrosa no quesito contrato com gravadoras e distribuição dos discos. Porém, sem Warhol, Lou Reed talvez não tivesse tido acesso à cena cultural da época, material vivo para suas composições e a banda, não teria aperfeiçoado seu aspecto teatral no palco, suas apresentações performáticas que tanto arrebatavam o público. Mais ainda, foi ele quem conseguiu convencer a banda a aceitar Nico como mais um membro.

Uma banda como o Velvet e com tantos egos envolvidos talvez só tivesse uma vida longa com o gerenciamento de uma pessoa realmente profissional. Não foi o que aconteceu e após o primeiro disco Lou Reed (talvez o ego maior entre todos) demitiu Warhol. E depois Nico. Houveram brigas e queixas e a banda, em sua sua formação, original (brilhante) se desfez. Lou ainda gravaria outros dois discos sob o nome Velvet Undergroud, mas sem o mesmo brilho.

A última parte do livro é destinada a nos apresentar cada música do disco, como ela foi sendo construída e sua relevância no momento. Ficamos sabendo que “Sunday Morning” foi criada num amanhecer de domingo depois de de uma longa farra e escrita para fechar um buraco no disco. Descobrimos que “All Tomorrow’s Parties” era a música preferida de Warhol.  E que “Heroin”, toda tocada em duas notas Ré e Sol, faria do grupo uma das maiores influências do punk, entre outras coisas.

Lou Reed era genial em sua essência. The Velvet Undergroud and Nico, é um álbum polêmico e maravilhoso em sua essência. Um álbum que precisou de anos para ser compreendido e elevando à categoria de referência musical de uma época. E, para finalizar, deixo a sugestão de Joe Harvard “Tente, enquanto escuta este disco, ignorar a infame reputação do grupo, deixar os preconceitos para trás e permitir que a música fale por si mesma.” Depois me conta!

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Este Livro foi enviado pela Editora

 

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