Resenha – Mata Teu Pai
por Juliana Costa Cunha
em 21/01/19

Nota:




A tragédia Medéia de Eurípides (480 – 406 a.C.), a versão mais conhecida do texto teatral, fundamenta-se na tradição lendária. Entretanto, Eurípedes era sensível aos problemas de seu tempo e fez destes problemas questões a serem desenvolvidos em suas peças teatrais. Entre seus temas preferidos está a mulher e sua condição na sociedade, dando destaque à discriminação que sofriam.

O mito de Medéia apresenta o retrato psicológico de uma mulher carregada de amor e ódio a um só tempo. Ela é apresentada  como esposa repudiada, abandonada e estrangeira perseguida. Ela se rebela contra o mundo que a rodeia, rejeitando o conformismo tradicional e tomada de fúria terrível, assume a vingança como meta para se modificar, tendo seu poder de persuasão e suas palavras como armas.

Mata Teu Pai é um texto para teatro, escrito por Grace Passô, baseada no mito grego de Medéia, esta mulher considerada bárbara que, para ultrajar o marido infiel, afronta as leis humanas e divina e acaba por matar seus próprios filhos.

No teatro, Mata teu pai é encenado por Débora Lamm, atriz carioca que iniciou sua trajetória n’O Tablado e que atualmente compõe a Cia OmondÉ, criada desde 2010. Débora segura a peça numa encenação grandiosa, trazendo o texto de Grace Passô para o mito de Medéia em nosso contexto atual, usando muito do que Eurípedes fez a seu tempo.

Aqui temos Medéia como personagem principal e também outras personagens (Ele, Ela, Mulheres e Público) que dialogam com ela ao longo do texto. Estas mulheres são refugiadas, cada uma de uma localidade diferente – uma cubana, uma paulista, uma haitiana, uma judia e uma síria. Todas morando no mesmo espaço, dividindo suas vivências e dificuldades de refugiadas, longe da família, sem seus companheiros (ou com companheiros ausentes) e com filhos. Tendo que dar conta da vida, das diferentes línguas que falam, do convívio com diferentes culturas e a relação de cumplicidade que se estabelece.

Grace Passô é dramaturga, diretora e atriz, possuindo outros textos teatrais lançados pela Editora Cobogó, através da Coleção Dramaturgia. Neste texto ela subverte o mito de Média. “Preciso que me escutem”, é a primeira fala da personagem, dirigida aos expatriados, imigrantes e ao público. Mas, principalmente às mulheres, que aqui se tornam suas cúmplices na reflexão do cotidiano e na necessidade de buscar mudanças.

“Olha pra mim! Muda essa história! Para de achar que a gente é um destino, muda essa história.”

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Este livro foi enviado pela editora

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