Resenha – Matadouro 5
por Patricia
em 17/04/13

Nota:

matadouro5

Matadouro 5 é um livro fora da caixa. Não é, de maneira nenhuma, um típico livro de viagem no tempo ou de guerra ou sobre vida extraterrestre – é tudo isso junto em uma mistura interessante e que desdobra a cabeça de uma maneira deliciosa.

Tudo começa com a vontade do autor de nos contar sobre uma das experiências mais terríveis da Segunda Guerra Mundial: o bombardeio dos aliados à cidade alemã de Dresden criando uma chuva de fogo que matou milhares de pessoas (os números oficiais ainda não existem…alguns sites falam de 500.000, outros de 22.000 mortos. É difícil saber quais são as fontes mais confiáveis nesse sentido).

Vonnegut presenciou realmente esse bombardeio mas o livro está longe de ser um livro de memórias da guerra. O relato é todo feito por Billy Pilgrim que é um personagem diferente: ele viaja no tempo ou, como Vonnegut poeticamente nos explica, ele se desprende do tempo.

Ainda assim, durante a leitura encontramos pedaços da Guerra que não deixam de nos apresentar o cenário real em meio a tanta fantasia: “Vestiam cintos de balas de metralhadora, fumavam charutos e bebiam avidamente. Davam mordidas selvagens em salsichas e alisavam suas granadas com as mãos calejadas.”

Billy não deu muito certo como soldado e suas viagens no tempo e no espaço nos mostram que, talvez, ele tenha perdido um pouco a razão. Ele oscila entre sua vida agora com momentos logo após a guerra em que estava internado na ala psiquiátrica do hospital e outros em que está em um zoológico no planeta Trafalmador – onde os locais o visitam para saber mais sobre os humanos.

Ele vai e volta em suas memórias desconexas e o número de mortes comentadas nesse livro aumenta a cada página. Ainda assim, cada vez que um morto é citado – seja o que for, humano, animal, planta – é sempre seguido por “coisas da vida” – como se não importasse ou se fosse algo comum. Essa é a maior crítica de Vonnegut à Guerra porque essa é uma atividade (e talvez a única) em que mortes são consideradas efeitos colaterais e não um erro em si – aliás, chegam a fazer parte da estratégia de vitória. O autor martela isso na nossa cabeça até o leitor ficar condicionado a não sentir pena dos que morrem, tal qual os soldados devem fazer.

O título principal do livro é explicado também – foi em um matadouro da cidade de Dresden que os soldados americanos presos pelos alemães assistiram ao bombardeio e a destruição que se seguiu. Coisas da vida.

À medida que lia o livro, pensei em uma interpretação para Billy e suas histórias de viagem no tempo e etc: Billy tem traumas de guerra: o que ele viu, o que ele fez e todas as variáveis acabaram por deixá-lo traumatizado muito além do que poderíamos imaginar. O próprio autor o coloca em um hospital psiquiátrico. Suas viagens no tempo, nada mais são do que lembranças muito vívidas de momentos que o impactaram de alguma maneira. Além disso, sua abdução para um outro planeta, pode ser uma maneira de escapar de seus próprios pensamentos. Quando fala de Trafalmador, Billy é carinhoso. Como se os alienígenas admirassem os humanos e ele representasse todos os humanos – afinal, ele está em exposição num zoológico, os locais vão até lá para vê-lo e ele não precisa fazer muita coisa. É uma forma de Billy ser adorado não pelo que fez ou pelo passado, mas simplesmente por quem ele é ou pode aparentar ser.

Mas essa é apenas uma interpretação para a história. Imagino que algo tão cheio de cantos e mundos e vírgulas, possa inspirar muitas outras interpretações.

De qualquer maneira que você possa analisar a história, a leitura é uma viagem fenomenalmente bem escrita. Com certeza, um dos melhores livros de ficção científica que já li com um tema que me agrada demais.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Matadouro 5”


 

Comentar