Resenha – Me chame pelo seu nome
por Patricia
em 21/02/18

Nota:

 

Me chame pelo seu nome é um livro que ganhou tração no mercado brasileiro com a adaptação para o cinema que vem arrancando elogios da crítica e levou 3 indicações para o Oscar, incluindo Melhor Filme. Sem ter visto o filme ainda, falaremos aqui apenas da obra original – o livro do egípcio André Aciman – lançado em 2007 e vencedor de melhor ficção Gay no Lambda Awards, premiação focada em obras que exploram temas relacionados à comunidade LGBT.

Na história, Elio mora na Itália com seus pais onde a família recebe jovens promissores todo verão que ajudam seu pai em sua pesquisa acadêmica, enquanto têm a oportunidade de experimentar uma nova cultura sem custos. Aos 17 anos, Elio é um jovem promissor com interesses cultos que vão de música clássica a literatura.

Em um belo verão eles recebem Oliver, um americano de 24 anos que pretende se tornar escritor e estuda filosofia. Elio imediatamente se sente atraído por Oliver mas não sabe se é recíproco. Acompanhamos Elio em seus devaneios adolescentes, questionando cada atitude de Oliver, cada minuto em que estão juntos ou separados, analisando repetidamente a dinâmica entre eles quando estão em grupos grandes ou pequenos.

Como qualquer adolescente apaixonado, Elio fica preso nesses pensamentos que nunca o abandonam. Ele é um jovem incomum e comum ao mesmo tempo se destacando de seus amigos pelos interesses fora do normal para um jovem de 17 anos, mas, quando está sozinho e podemos acompanhar seus pensamentos, vemos que ele é um jovem de 17 anos como outro qualquer no quesito desejos e inseguranças.

Grande parte da história é essa dança de Elio consigo mesmo tentando entender se sua atração é recíproca ou possível. Há uma certa inocência nessa parte da história e o autor explora isso de uma maneira muito honesta. Eventualmente, o romance desabrocha mas com um prazo de validade: normalmente, os ajudantes de seu pai ficam com eles apenas durante um verão e outro ajudante virá no ano seguinte.

Um dos pontos fortes da obra é que, em nenhum momento, o autor coloca a história como algo anti-natural. Sob esse ponto de vista, o livro com certeza quebra barreiras. O romance entre Elio e Oliver é tratado tão naturalmente como se fosse um romance de Oliver e Diana ou Elio e Natalia, por exemplo. Não há trechos de questionamento contaste sobre o quanto isso é certo ou errado, o que as pessoas vão pensar, o que é natural e etc. E é realmente refrescante ler isso. Confesso que esperava acompanhar os conflitos internos dos personagens sobre um romance homossexual por ser algo comum em obras com esse mote e não encontrei nada disso.

De fato, o autor parece seguir a máxima “amor é amor” e trata Elio e Oliver como dois amantes, pura e simplesmente. A complexidade deles vai muito além de suas orientações sexuais ou por quem se sentem atraídos. E isso é muito mais importante do que a história em si. Conduzir a história dessa maneira, por si só, já quebra diversos paradigmas sobre o que um jovem se descobrindo sexualmente passa.

A escrita de Aciman é crua e bem direta. Os pensamentos de Elio às vezes são excruciantes de acompanhar e a leitura pode se arrastar um pouco quando temos longas sequências do jovem duvidando dele mesmo ou do que sente ou do que Oliver sente ou do que ele quer e às vezes voltando e repassando tudo o que aconteceu ou não aconteceu e etc.

A historia em si não é a mais original que já vimos. Em linhas simples, são duas pessoas que vivem um amor de verão em que tudo parece possível e perfeito, mas que tem data para acabar. O impacto que isso terá em cada um deles vai marcá-los para toda vida de maneiras diferentes. Uma bela história, cujo impacto é, talvez, mais importante do que a história em si.

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O livro foi enviado pela editora. 

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