Resenha – Missoula
por Patricia
em 24/04/19

Nota:

Jon Krakauer escreveu um dos meus livros de não-ficção preferidos: “No ar rarefeito”, sobre um grupo de pessoas que decidem escalar o Monte Everest. Além disso, ele também é o autor de “Na natureza selvagem” (que já foi resenhado aqui) que deu origem ao filme que todo adolescente assiste e acredita que pode tornar sua realidade de dar um fim ao capitalismo e, eventualmente, morrer de fome no mato ao comer um cogumelo duvidoso.

Quando uma conhecida confidencia a ele e sua esposa que ela foi estuprada quando era jovem por um menino que ela conhecia e depois por um amigo da família, Krakauer decide que ele não sabe o suficiente sobre o assunto e sai em busca de informações sobre estupro: dados, histórias e etc. É assim que ele chega em Missoula – cidade de Montana com menos de 75 mil habitantes, a cidade é essencialmente composta de universitários e gira em torno da Universidade de Montana.

Jornalista experiente, Krakauer normalmente baseia seus livros em temas pouco discutidos na sociedade. Porém, com “Missoula” ele ataca de frente uma das maiores epidemias já vistas nas universidades norte-americanas: estupros. A partir de artigos e entrevistas em primeira mão com as algumas das vítimas, ele desvenda um sistema disposto a duvidar das mulheres e defender os homens – principalmente se eles forem essenciais para a vida acadêmica da cidade.

Usando até mesmo as entrevistas com a polícia local, ele demonstra que o total despreparo da força policial para lidar com o tema. Policiais que eram fãs do time de futebol americano da Universidade, tinham dificuldades de acreditar que um de seus atletas pudesse ser culpado. Uma policial ao entrevistar o acusado o acalmou dizendo que “sabia que ele era inocente” antes mesmo do processo ser iniciado.

Conforme Katie J. M. Baker comentou em ser artigo na Jezebel: “em Missoula […] caras bêbados que podem ter ‘cometido erros’ quase sempre recebem o benefício da dúvida. O mesmo não vale, porém, para garotas bêbadas.” (pág. 91).

O que Krakauer descobriu é que estupro na Universidade não era só uma epidemia, mas que a cidade inteira estava totalmente despreparada para lidar com os casos deixando as alunas à deriva enquanto dava ao alunos mensagens dúbias sobre o que deveriam ou não fazer.

Ele nos guia por casos dos mais diversos: das alunas que foram desacreditadas pela polícia, para advogadas que destruiram a reputação de uma vítima fazendo com que a população duvidasse completamente do relato dela e explicando os motivos porque muitas alunas decidiam simplesmente não reportar o caso. Em uma análise geral, o autor levanta dados assustadores, como: “quando uma pessoa é estuprada nos Estados Unidos, mais de 90% das vezes o estuprador sai impune do crime.” (pág. 154).

Missoula é um pedaço do mundo que prece refletir tudo o que vemos na sociedade. A educação de submissão que as mulheres tendem a receber de forma consciente ou não, imbui a maneira como se reage a esse tipo de agressão.

‘Na verdade, foi uma atitude bastante comum as mulheres não gritarem ou chamarem a polícia nos casos de estupro que processei’, diz Roe, ‘ao menos em parte porque não são programadas para reagir assim. Somos educadas para sermos agradáveis e para não criarmos atritos. Somos criadas para sermos amáveis. Espera-se que as mulheres resolvam problemas sem fazer uma cena – espera-se que elas façam coisas ruins desaparecerem como se jamais tivessem acontecido.” (pág. 189)

No começo do livro, há um nota do autor dizendo que algumas das cenas descritas eram gráficas. De fato são. Porém, ao fechar o livro NADA do que foi descrito foi surpreendente ou gráfico o suficiente para me chocar. Lamentavelmente, como mulher, todas as histórias descritas aqui já chegaram até mim de maneiras diferentes. Foi com sincera tristeza que percebi isso ao final da leitura.

Ainda assim, o livro dói por ser tão real e mostrar tão bem o que as mulheres que são vítimas desse tipo de crime enfrentam. Além do trauma que muitas carregarão para o resto da vida, ainda se debatem com todo um sistema que as trata como mentirosas e levianas.

“Missoula” é mais uma obra de Krakauer que acerta em cheio e nos apresenta o mundo como ele é, sem o véu do que queremos que ele seja.

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