Resenha – Mulheres e ficção
por Patricia
em 21/10/19

Nota:

Conheço, até o momento, apenas a Virginia Woolf ensaísta. A escritora que consegue escrever ensaios que parecem sobreviver aos tempos (ou será que é porque os tempos parecem mudar pouco?). Uma de suas maiores preocupações e seus principais pensamentos giravam em torno da condição da mulher – tanto nas artes como na vida.

Em “Um teto todo seu” ela aborda com profundidade o papel da mulher na ficção – tanto na que elas mesmas escreviam, como naquelas nas quais eram objeto. Woolf aproveita para nos dar uma possível receita de como aumentar a produção de autoras: dêem espaço, liberdade financeira e empoderamento e as autoras que não podiam escrever, poderiam produzir clássicos.

Em “Mulheres e ficção” os ensaios retomam esse tema mas tentando responder outras questões: por que as obras assinadas por mulheres são tão intermitentes? Temos na Grécia alguma representação, por exemplo, mas passam décadas e séculos sem que possamos encontrar uma mulher no panteão da literatura no mundo.

“Quando a mulher era passível, como foi no século XV, de levar uma surra e ser jogada no quarto se não se casasse com o homem escolhido pelos pais, a atmosfera espiritual não era favorável à produção de obras de arte. […] É significativo que, das quatro grandes romancistas mulheres – Jane Austen, Emily Brontë, Charlotte Brontë e George Elliot – nenhuma teve filhos e duas não se casaram.” (pág. 11)

Jane Austen ganha um ensaio inteiro em que Woolf exalta a habilidade satírica de Austen e a consagra como uma das melhores autoras satíricas da Inglaterra. Aqui, Woolf faz um exercício ousado do que Austen escreveria se tivesse vivido mais do que seus breves 42 anos. Partindo da última obra finalizada da autora, “Persuasão” – a qual Woolf chama (com razão) de monótona – para definir que essa poderia ser a marca do que teria sido uma nova era de Austen se ela não tivesse morrido. Muitos autores passam por uma obra monótona para, então, tentarem um estilo ou temas diferentes. Será que se tivesse vivido mais alguns anos, Austen poderia ter usufruído de sua fama, conhecido pessoas diferentes e, assim, ter escrito livros que atacassem com sua conhecida mordacidade uma nova classe inglesa? Não sabemos, mas o exercício é interessante.

No ensaio dedicado às irmãs Brontë, Woolf presta atenção especial a Charlotte e seu excelente “Jane Eyre” chegando a compará-la com Thomas Hardy. Há ainda um ensaio sobre a autora Geraldine Jewsbury e sua amizade com Jane Carlyle e outro sobre a autora Christina Rossetti – ambas pouco conhecidas no Brasil – Jewsbury nunca foi traduzida e Rossetti teve apenas uma obra lançada em português.

O ensaio que fecha o livro “Pensamentos de paz durante um ataque aéreo” é o que tem menos a ver com o título da obra – fala pouco sobre mulheres e nada sobre ficção. Acaba sendo apenas mais uma amostra do talento de Woolf para escrever sobre qualquer coisa.

O melhor ensaio de todo o livro, porém, é “Como se deve ler um livro?” em que ela destrincha o papel do leitor como crítico e analista de uma obra literária. Mais além, ela diz que ninguém deve determinar o que, como, onde, ou os motivos para se ler um livro, a não ser o próprio leitor.

“De fato, o único conselho sobre leitura que uma pessoa pode dar a outra é não aceitar conselho algum, seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões.” (pág. 54)

Woolf era apaixonada por literatura tanto como escritora quando como leitora. Ela entendia a literatura como um prazer por si só, daqueles a que todos podem se render sem preocupações.

“Eu pelo menos já sonhei às vezes que, quando raiar o dia do Juízo Final e as grandes conquistadoras, juristas e estadistas vierem receber suas recompensas, o Todo-Poderoso há de se virar para São Pedro e dizer, não sem certa inveja, quando vir que chegamos sobraçando livros: ‘Esses aí, olhe só, não precisam de recompensa. Não temos nada para dar-lhes aqui. Eles adoravam ler.” (pág. 67)

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O livro foi enviado pela editora.

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