Resenha – Mulheres, raça e classe
por Bruno Lisboa
em 09/07/18

Nota:

Quando se pensa na luta contra o racismo nos EUA geralmente o que nos vem a mente são as histórias de mártires como Martin Luther King e Malcolm X que souberam, cada a sua maneira, fazer história na lutra contra a segregação. Mas um detalhe que geralmente passa desapercebido nas aulas de História de modo geral é a omissão das mulheres neste contexto. É sabido que muitas, na mesma época, travavam batalhas tão heroicas quanto, mas não receberam a devida visibilidade. E para fazer justiça a elas Angela Davis lançou em 1981 Mulheres, raça e classe, obra lançada pela editora Boitempo em 2016.

Angela Davis é ativista política, escritora e professora universitária. Com carreira iniciada no final dos anos 60, Davis fez parte dos Panteras Negras, do movimento de contracultura e dos direitos civis. Tamanha militância acabou por coloca-lá como “inimiga pública número 1” dos EUA, acabou por resultar numa errônea prisão na época. Ela só foi solta meses após, devido a grande pressão popular. Para quem não conhece sua história é recomendado o documentário Free Angela Davis and all political prisioners.

No livro Davis retoma a história dos EUA, na época da escravidão, para trazer à tona a história de dezenas de mulheres que desde lá já enfrentavam as agruras ligadas ao racismo, ao sexismo e a luta de classes. E é aqui que reside o grande trunfo deste tratado acadêmico criado pela autora já que ela perpetua um olhar aguçado, multilateral, que ajuda a compreender as agruras daqueles tempo onde o Norte (liberal) e Sul (escravocrata) do país travavam batalhas ideológicas homéricas quando o assunto era o negro e a sua condição de vida.

Como marxista que é, Davis critica o capitalismo em defesa da classe trabalhadora que tanto foi (e ainda é) explorada nos primórdios da era industrial pós-escravidão com cargas horárias elevadas e baixos salários.

Por mais que hoje o feminismo esteja em voga (com algumas batalhas vencidas e outras tantas ainda pela frente), no século XIX o cenário era caótico, pois além da escravidão sulista ao negro eram oferecidas as piores condições possíveis de sobrevivência ligadas à empregabilidade e a má remuneração (principalmente das mulheres), a segregação escolar e do direito ao voto, a cultura do estrupo da mulher negra, o absurdo controle de natalidade imposto. Cansados desta sub-humana condição de vida a partir dali se iniciou um longo embate visando a igualdade.

Outro ponto interessante é o fato de que grande parte das causas enfrentadas por mais que tivessem um viés feminista por grande parte da sociedade as mesmas, de fato, diziam a respeito do modus operandi de um mundo mais justo e igualitário. E com isso aos poucos os brancos (as mulheres essencialmente) compreenderam isto, uniram forças e conquistaram muitas das demandas solicitadas.

Utopias a parte, se almejamos uma sociedade mais justa, igualitária, independente do sexo, raça ou classe pertencente é preciso readequar o pensamento individual que, geralmente, atende a interesses próprios ou de um grupo e exclui todo o resto. Se você não acredita nisto, a leitura de Mulheres, raça e classe mostra o caminho.

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