Resenha – My damage: the story of a punk rock survivor
por Bruno Lisboa
em 10/07/17

Nota:

 

“Quem vive sobrevive”, já diziam os Titãs em “Cadáver sobre cadáver”, canção presente no essencial Nheengatu. De fato, a afirmação é das mais verdadeiras e é aplicável em várias vertentes já que vale associar tanto a aqueles que enfrentam as agruras da vida diariamente, tanto para os que buscam vivê-la de maneira irrefreável como se todo o dia fosse o último. Nesse sentido, a vida de Keith Morris se enquadra perfeitamente na segunda categoria como é exposto em sua autobiografia My damage: the story of a punk rock survivor. 

Para quem não o conhece cabe aqui uma breve introdução: Morris nada mais é do que uma das figuras mais lendárias quando o assunto é punk rock. Seu nome é associado aos primórdios do gênero nos EUA, capitaneando bandas onde protagonizou performances lendárias que renderam inúmeras histórias presentes neste livro.

Escrito em parceria com jornalista Jim Ruland, na obra Keith aborda sem ressentimentos ou parcialidade toda a sua vida. Partindo de sua infância liberal, o cantor fala abertamente nos primeiros capítulos sobre a relação feliz estabelecida com os seus pais. Na sequência, Morris aborda como se dera a sua entrada para o Black Flag, grupo essencial do qual ele foi co-fundador.

De maneira reveladora, ele traz a tona fatos relacionados aos primórdios do grupo, como quem elevou a banda a status de grandeza e profissionalismo não foi o “dono da vaca”, leia-se o encrenqueiro (e gênio) Greg Ginn, mas sim Chuck Dukowski, baixista da formação original, que é descrito por Keith como o “coração e a alma” banda.

Como todo pioneiro em alguma seara, o Black Flag sofrera e muito em seus primeiros anos de existência. Como o autor revela, a rejeição inicial se deu devido a falta de compreensão da proposta sonora do grupo, que buscava uma sonoridade mais suja, primitiva e provocativa em relação ao que era produzido na época.

A não aceitação chegou a tal ponto que até mesmo a polícia os perseguiam devido a fama de arruaceiros. Mesmo com tamanha represália, a banda optou seguir em frente, produzir seus próprios shows e lançar, por conta própria, seus discos. Tal iniciativa resultou na gravadora SST, selo que lançou discos essenciais de bandas que mapearam o cenário alternativo norte-americano. Tal como Chuck, que abandonaria o grupo tempos depois após o disco “My War”, Keith sairia bem antes, tendo gravado apenas o EP “Nervous Breakdown”, disco que anos mais tarde definiria o hardcore norte-americano.

Como a festa não poderia terminar, Keith montaria na sequência outra banda essencial: o Circle Jerks. O repertório do grupo, baseado em canções extremamente velozes e performances de palco brutais, modificariam o punk rock para sempre, que seguiria esta explosiva proposta sonora dando origem ao que hoje é o conhecido hardcore americano. Inclusive fora com o Jerks que Morris e cia passaram por uma das mais hilárias histórias do livro: o dia em que tocaram num convento de garotas. Como se não bastasse o caráter inusitado do local de apresentação, durante a mesma as residentes cuspiam umas nas outras, o que acabara gerando um enorme desconforto para as irmãs responsáveis pelo espaço.

Fugindo do formato “chapa branca”, Morris assume (sem arrependimento) muitos dos erros cometidos, ora por excesso de drogas, ora ligadas as inimizades geradas no universo da música. A mais homérica é a situação envolvendo Gregg Ginn, que judicialmente o processou devido a uma briga pela utilização do nome e repertório do Black Flag. O conflito até hoje está em suspenso, mas foi vencido em primeira instância por Keith que pode se apresentar sob o codinome FLAG, desde que o repertório se concentre nos primórdios da banda.

Por um outro lado, o cantor demonstra que no decorrer dos anos ele também soube desenvolver amizades sólidas. E para isso dedica várias linhas ao Red Hot Chilli Peppers e Brett Gutierrez (Bad Religion), que foi um dos maiores apoiadores das iniciativas de Keith, incluindo o amalucado projeto de Punk Jazz Midnight Snack Break at the Poodle Factory lançado pela sua gravadora, a Epitah Records.

Atualmente, Morris continua a acrescentar páginas a sua vasta biografia ao permanecer na ativa, capitaneando o OFF! em turnês mundo afora. Logicamente o ritmo desenfreado de outrora não está mais em voga, devido a complicações da saúde devido a diabetes, mas, ainda sim, ele segue mantendo acesa a chama do gênero musical que ajudou a (re)definir.

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