Resenha – Na vertigem do dia
por Juliana Costa Cunha
em 29/07/19

Nota:

Na Vertigem do Dia, publicado originalmente em 1980, é um volume que se segue ao grandioso Poema Sujo. Nele é possível perceber a reafirmação de sua escrita e também possíveis estudos sobre forma e temas que posteriormente encontramos na poesia de Ferreira Gullar.

A vertigem, o atropelo do cotidiano, a metrópole e seu ritmo, o caos em nós, no poeta e nas ruas, estão presentes neste livro em nova edição pela Companhia da Letras (que também publicou outros livros do autor nesta coleção). O prefácio desta edição é escrito por Alcides Villaça e nos dá um excelente panorama do processo criativo e do contexto em que o livro foi escrito.


TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Segundo Villaça, Traduzir-se é o único poema neste livro que segue métrica e rimas. Os demais possuem um caráter mais experimental e livre, fazendo jus à vertigem dos dias vividos, do tempo ditatorial em que estes poemas foram surgindo e demandando do autor menos primor no fazer poesia e mais ritmo e realidade, diante da conjuntura.

Um exemplo disso é o poema Digo sim escrito em 1975, em pleno regime ditatorial. E o célebre poema escrito para Clarice Lispector no dia de seu falecimento, que transcrevo abaixo.

Digo sim


Poderia dizer
Que a vida é bela, e muito,
E que a revolução caminha com os pés de flor
Nos campos de meu país,
Com pés de borracha
Nas grandes cidades brasileiras
                               E que meu coração
É um sol de esperanças entre pulmões
                               E nuvens.
 Poderia dizer que meu povo
É uma festa só na voz
De Clara Nunes
                               No rodar
Das cabrochas no carnaval
Da avenida.
                             Mas não. O poeta mente.
A vida nós a amassamos em sangue
                              E samba
Enquanto gira inteira a noite
Sobre a pátria desigual. A vida
Nós a fazemos nossa
Alegre e triste, cantando
                             Em meio à fome
                             E dizendo sim
– em meio à violência e a solidão dizendo
Sim –
Pelo espanto da beleza
Pela flama de Tereza
                              Pelo meu filho perdido
Neste vasto continente
                              Por Vianinha ferido
                              Pelo nosso irmão caído
Pelo amor e o que ele nega
Pelo que dá e que cega
                              Pelo que virá enfim,
                              Não digo que a vida é bela
                              Tampouco me nego a ela:
                              – digo sim.

A morte de Clarice Lispector


Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores 
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

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