Resenha – Não Sou Uma Dessas
por Gabriel
em 13/12/14

Nota:

Não sou uma dessas

Pensei um pouco ao decidir em que categoria enquadrar “Não sou uma dessas”. Optei por classifica-lo como uma biografia, já que se trata de um grande apanhado de memórias da autora. Mas vários elementos ali são diferentes do que acostumamos a chamar de biografia.

Lena Dunham é a criadora e roteirista de uma série chamada Girls, da HBO. A série fala sobre os problemas da vida de quatro meninas americanas nos seus vinte e poucos anos e deu a Lena diversos prêmios importantes, inclusive um Globo de Ouro. Havia ouvido falar sobre a série por alto antes de ler o livro, mas percebi depois que há muitos elementos autobiográficos também no roteiro para TV. O sucesso de Lena provavelmente se deve ao fato de ter conseguido traduzir bem as suas experiências com vinte e poucos anos no mundo de hoje, já que suas leitoras e seu público provavelmente se enquadram nessa faixa também.

O livro é um conjunto de capítulos bem diferentes entre si. Lena utiliza diversas formas de escrita, não se atém à sequência temporal e conta sua história usando recursos interessantes como listas de fatos que aprendeu com o pai dela ou capítulos inteiros que descrevem apenas homens com quem ela dormiu. A escrita é fluida e lembra muito um blog pessoal, o que facilita a leitura. Percorri as 300 páginas deste livro em menos de uma semana sem nenhum problema. Desenhos feitos por uma amiga da autora decoram algumas páginas e tornam a experiência mais única. Quanto à edição, as partes internas de capa e contracapa são muito bonitas, decoradas com um padrão colorido de pequenos objetos.

Quanto à história em si, me pareceu que o livro começa muito bem, perde um pouco do fôlego no meio e termina com novo ânimo. Lena inicia os seus relatos pelos assuntos relacionados a sexo, que rendem boa parte das passagens mais engraçadas. Mas isso também queima logo de início muitos “cartuchos” de boas histórias. Além disso, a autora se torna um pouco repetitiva em alguns momentos, voltando em uma ou outra história (ainda que sem comprometer a fluidez do texto). Achei também que ela poderia ter falado um pouco mais sobre a sua vida atual com TOC; é um assunto do qual é raro ver a posição de quem vive com isso, ainda mais escrita com a qualidade com que Dunham escreve.

Alguns pontos do livro falam direto a qualquer leitor nos seus vinte a trinta anos. As situações amorosas, sexuais e a vida nas escolas têm muitas semelhanças com a experiência de qualquer um nessa faixa, ainda que se guardem as proporções de Lena ter vivido nos Estados Unidos. Eu mesmo me reconheci em muitas daquelas histórias e imagino que uma leitora mulher encontre muito mais pontos de coincidência. Um capítulo em particular, que fala sobre fugir de casa, traça um paralelo muito interessante com essa vontade infantil nunca cumprida (se esconder nas lixeiras com a ilusão de que sua mãe está te vendo todo o tempo e vem te buscar daqui a pouco, nas palavras dela) e a vida contemporânea de alguém que já saiu da casa dos seus pais. Foi o que mais me fez pensar e talvez merecesse até ser mais desenvolvido.

Por fim, outro aspecto muito interessante é o quanto o livro menciona diversas vezes a existência do relacionamento atual de Lena, sempre como um oásis, um porto seguro e ponto de chegada em relação aos diversos malfadados relacionamentos anteriores. O romantismo que transparece quando a autora menciona seu atual namorado é bonito, apesar de ingênuo; e por mais que pouco seja dito sobre eles, a segurança que isso traz a ela é clara e não deixa de ser uma mensagem otimista.

Lena Dunham escreveu um ótimo livro sobre os vinte e poucos anos de uma mulher nos Estados Unidos. Quanto mais em comum você tiver com essa descrição (ter vinte e poucos anos/ser uma mulher/ter vivido nos Estados Unidos), mais você vai se identificar. Mas muitas das passagens são engraçadas por si só. Um livro que vai te garantir bons momentos leves e divertidos.

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O livro foi enviado pela editora. 

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