Resenha – Nem vem
por Patricia
em 01/11/17

Nota:

 

Lydia Davis venceu o Man Booker International Prize em 2013 com “Nem vem” que chega agora ao Brasil pela Companhia das Letras.

A escrita de Davis é difícil de descrever. A autora não parece ser guiada por nenhum gênero em particular e sua ficção passa de poesia a contos curtos a uma única frase de poucas linhas que explica um sonho. Especular em qual gênero ela se encaixa seria travar sua escrita. E é aqui que está seu maior mérito: Davis não parece se importar com regras e seguir um padrão pré-estabelecido. Ao invés disso, ela quebra regras e expectativas criando a narrativa que bem entende sobre o que quer. Tudo a inspira. Tudo mesmo – de uma embalagem de ervilhas a um erro na grafia de seu nome em algum evento.

A estranheza que ela causa com sua escrita acaba impactando o leitor de várias maneiras. Às vezes lendo os textos curtíssimos, você sente que está lendo o diário de alguém ou um post-it daqueles que colamos pelos lugares com coisas que não devem ser esquecidas. Às vezes seus “poemas” (se é assim que podemos defini-los) sem rima acabam por ser apenas lembretes singelos de uma conversa. Há (poucos) textos mais longos e não sei se poderiam nem ser classificados como um conto. Muitas vezes são apenas ideias desenvolvidas mas não há um desenvolvimento padrão de personagem e enredo.

No texto “Carta à Fundação”, Davis diz: “Meus hábitos mentais são tão arraigados que continuo a pensar as mesmas coisas, do mesmo modo, ainda que as circustâncias sejam inteiramente outras”. Sua escrita é um convite para questionar o hábito mental da leitura padrão e encontrar beleza em coisas mundanas, que muitos escritores não veriam valor em mencionar e, às vezes, o valor é realmente baixo, mas está ali.

Em “Sem interesse”, talvez vemos um pequeno vislumbre que poderia explicar sua escrita:

Não cansei de todos os livros bons, só dos romances e dos contos, mesmo que sejam bons, ou mesmo que sejam considerados bons. Hoje em dia prefiro livros que contenham algo real, ou algo que o autor, pelo menos, acha que é real. A imaginação dos outros me chateia. A verdade é que a imaginação da maioria das pessoas não tem interesse – dá para adivinhar de onde o autor tirou suas idéias. Dá para prever o que vai acontecer antes mesmo de acabar de ler uma única frase. Tudo parece arbitrário.”  (pág. 255)

Tudo isso faz com que a leitura de Davis seja totalmente inesperada: não sabemos o que encontraremos na página seguinte. Esse estilo fará com que muitos leitores sejam jogados para fora de sua zona de conforto. Porém, quando se desapega de esperar algo padrão e comum, é possível apreciar a escrita de Davis de maneira mais completa.

Ou seja, há um leitor que apreciará muito a autora: aquele que espera ser surpreendido e que, talvez, não precise necessariamente de um personagem constante ou um narrador reconhecível. Pessoalmente, gosto muito de ter um narrador parceiro na história e confesso que meu estranhamento com a autora durou boa parte da leitura. Eventualmente, entendi que minha relação com Davis seria de uma leitura sem pressão: leria os textos quando me desse vontade, quando precisasse de algo diferente. Deu certo. Ao ler Davis sem a pressão de analisá-la em cada vírgula para tentar achar um sentido ou uma razão, a leitura deslanchou me levando a aproveitar muito mais cada texto.

O negócio é sair da caixa.

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O livro foi enviado pela editora. 

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