Resenha – Ninguém escreve ao Coronel
por Patricia
em 19/08/13

Nota:

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Mais Gabo para aquecer o coração e falar de literatura de qualidade. 😉

Ninguém escreve ao Coronel é um conto intenso. Ele nos apresenta um casal idoso penando para sobreviver em uma cidade estranha. Eles mal têm o que comer e vivem à espera de uma carta que poderá ajudá-los. A carta deveria trazer o pagamento da aposentadoria do Coronel mas nunca chega. Eles esperam há mais de 15 anos e nada. Enquanto isso, sobrevivem Deus sabe como.

O filho deles – Augustín – morreu baleado por causa de uma rinha de galos e o Coronel e sua esposa criam o galo que pertenceu ao filho esperando engordá-lo e vendê-lo a um preço razoável. Ou engordá-lo para ganhar alguma coisa nas rinhas. Para isso, acontece de um deles, de vez em quando, comer menos para que o galo possa comer alguma coisa. A esposa é asmática e o próprio Coronel tem seus problemas de saúde mas não podem comprar remédios muito caros.

Toda 6a feira, o correio chega de barco e o Coronel vai esperar o carteiro. Ouve impiedosamente a frase “Ninguém escreve ao Coronel” quase toda vez que pergunta se tem algo para ele.

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Esse conto foi um dos primeiros trabalhos de Gabo. Escrito antes mesmo de Cem anos de solidão, ele já conta com uma pequena aparição de Aureliano Buendía (os Buendía são o centro de Cem anos…) e Macondo também é citada.

Gabo tinha 29 anos e estava falido quando trabalhou nessa história. Podemos dizer que muito de sua própria pobreza ele repassou para o conto. Como sempre, a forma como ele descreve qualquer coisa vai além de apenas palavras e é possível sentir na pele o nível de pobreza, saudade, ansiedade e leve desespero em que vivem o Coronel e sua esposa. Em algumas passagens, Gabo consegue deixar o coração do leitor apertado de tristeza. Além, é claro, de traduzir em realidade o que a burocracia pode causar na vida de algumas pessoas. A espera por uma ajuda, por uma resposta, por um caminho pode condenar muitas pessoas a mais desespero do que podemos imaginar.

Amostrinha de leve: “O Coronel comprovou que quarenta anos de vida em comum, de fome em comum, de sofrimentos comuns, não lhe bastaram para conhecer sua mulher. Sentiu que também no amor alguma coisa tinha envelhecido.”

O Coronel e sua esposa vivem em uma cidade com regras firmes – pode-se até imaginar uma Ditadura já que filmes são constantemente censurados e as pessoas criaram um jornal alternativo para contar as notícias que não aparecem nos diários –  e aqui, Gabo insere também sua crítica ao resto do mundo por não entender o que acontece na América Latina (algo que ele deixa muito claro em alguns de seus discursos no livro Eu não vim fazer um discurso.) “Para os europeus, a América do Sul é um homem de bigodes com um violão e um revólver – brincou o médico, rindo sobre o jornal. Não entendem nossos problemas.”

Tudo isso em 95 páginas. Prova de que o autor não precisa de 400 páginas para destrinchar seus pensamentos mais profundos de maneira direta ainda que poética. É o tipo de escrita que raramente vejo em autores contemporâneos. É o tipo de escrita que o coloca constantemente no topo da minha lista de autores preferidos. Recomendo esse conto mais do que Doze Contos Peregrinos para conhecer o autor se você ainda não leu nada dele.

Lindo, emocionante, triste, poético e 95 páginas puras de Gabo. Não precisava de mais nada. 🙂

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