Resenha – Novena para pecar em paz
por Juliana Costa Cunha
em 09/04/18

Nota:

Este é um livro de contos, escrito por mulheres e com mulheres no centro das narrativas. Os corpos que cada uma das personagens habita tem papel central em cada um dos contos. São tantas as questões envolvidas que me levaram ao exercício da empatia por cada uma das personagens. A conclusão é que é preciso nos ouvir e nos acolher mais.

A apresentação do livro é feita pela Natália Borges Polesso, autora do livro Amora (Não Editora). Uma apresentação bem delicada, diante de contos tão fortes. Ao longo do livro vamos nos deparando com as lutas pessoais, as questões psicológicas, as violências institucionais, amorosas e familiares vivenciadas pelas personagens.

O conto “Luz negra”, da Beatriz Leal Craveiro, nos traz a personagem principal vivenciando um processo de manipulação psicológica por parte de seu marido, fazendo-a duvidar de si mesma e minando sua saúde metal. É doloroso acompanhar sua angústia. Beatriz é também autora do livro “Mulheres que mordem” – Imã Editoria.

Cinthia Kriemler, organizadora do livro, lançou em 2017 seu primeiro romance “Todos os abismos convidam para um mergulho” – Ed. Patuá (amei esse título e quero o livro). Seu conto intitulado “Destino” narra a história de duas irmãs que precisam ficar em casa sós, enquanto sua mãe sai para trabalhar como prostituta, até que o destino de todas muda. E não é para melhor.

“Estranha Fruta” é o conto escrito por Lisa Alves. Strange Fruit é, talvez, a música mais marcante da carreira de Billie Holiday. É uma música clássica na luta contra o racismo. Tão importante que se tornou um biografia. Sim, uma biografia de uma música. “Strange Fruit – Billie Holiday a biografia de uma canção”, o livro, foi lançado pela finada Cosac&Naif, sob a autoria de David Margolick. E é um livro incrível! (mas isso é um outro assunto. um outro livro. quem sabe para uma nova resenha…). Voltemos a Lisa Alves e seu conto. Nele temos a história de um casal de lésbicas negras e uma situação de estupro sofrido por uma delas, levando-a à morte e todo o sofrimento de quem fica. Foi um dos contos desse livro que me deu mais raiva, por todos os absurdos. A morte brutal de uma delas. E toda a dor e sofrimento vivenciados por quem ficou.

Lívia Milanez escreveu o conto “Um caule de mogno” que narra a história de libertação de uma mulher trans dos segredos familiares às vésperas de realizar sua cirurgia. Aquele bom e velho “fodam-se” depois de um processo doloroso de descobertas e aceitação de si mesma. Adorei a cena final!

Duas crianças. Duas irmãs. Uma mãe que tenta dar a elas tudo de bom, mas que sente falta de um homem a seu lado. E este homem que chega e que é tão bom para todas, abusa sexualmente das duas irmãs com consequências arrasadoras. UFA! Com foi difícil ler esse conto, “As duas irmãs”, escrito pela Maria Amélia Eloi. Tive momentos de palpitação nas poucas páginas dessa história tão dura e tão real (infelizmente).

No conto “Manual de Mergulho”, Mariana Carpanezzi nos narra a história das escolhas de uma mulher (às vezes demoradas e difíceis) em busca de si mesma e de suas potencialidades. Quem nunca?

Patrícia Colmenero. Foi por causa dela que cheguei nesse livro, já que ano passado li seu livro “Porque até a morte terei fome”, que me deixou encantada com sua escrita e louca por novos livros dela. Aqui, Patrícia nos apresenta o conto “Santa felicidade” dedicado à sua mãe, e nos narra o cotidiano de uma mulher que tem, no ato de ir ao mercado fazer compras para casa, sua grande obsessão e único prazer na vida. É bem tocante.

“Mirna” é o conto da Paulliny Gualberto Tort, e nos traz a rotina de uma esposa e mãe, cansada de seu cotidiano, que tem vontade de ir embora deixando tudo para traz, mas que sempre volta para casa. Anulação de desejos e de existência.

Rosângela Vieira Rocha nos apresenta uma senhora da 80 anos que tem a dura missão de enterrar sua filha. Ela precisa ir ao apartamento buscar documentos e a roupa que sua filha usará no velório e nessa busca encontra “O bolso do vestido azul” e dentro dele uma carta na qual a filha narra uma passagem difícil de sua vida na época da ditadura no Brasil.

Não é um livro de fácil digestão, como vocês podem ver. Mas um livro necessário. Real. Daqueles que nos colocam pra pensar em cada história narrada. Ou porque já vivenciamos algum desses momentos; ou porque temos alguma mulher próxima a nós que já passou por um deles; ou porque precisamos saber que essas coisas ainda acontecem; ou porque em algum momento podemos estar amparando alguma de nós num momento difícil.

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Livro enviado pela editora

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2 Comentários em “Resenha – Novena para pecar em paz”


Cinthia Kriemler em 10.04.2018 às 09:05 Responder

Muito obrigada! Com certeza uma resenha excelente sobre nossa antologia!

Juliana Costa Cunha em 10.04.2018 às 20:50 Responder

Eu que agradeço, Cinthia. E fico muito feliz que tenha gostado. O livro é muito bom! 💙🌻


 

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