Resenha – Nunca houve um castelo
por Patricia
em 13/06/18

Nota:

Martha Batalha recebeu críticas positivas ao publicar seu primeiro livro – A vida invisível de Eurídice Gusmão em 2016. O livro logo foi traduzido trazendo aclamação de sites como Kirkus, Four Way Books, e segue com 5 estrelas no Goodreads. O livro já teve os direitos comprados e será adaptado para o cinema com direção de Karim Aïnouz.

É de se esperar, portanto, que as expectativas para o segundo livro de Batalha – Nunca houve um castelo – fossem altas.

Nesta obra, a personagem condutora será Estela Jansson. Casada com Otávio, ela começa a obra jogada na cama, chorando enquanto sua família está na sala de estar. Uma festa de Ano Novo marcou sua vida de maneira irreversível (ou assim ela pensava). Este é o cenário inicial que Batalha usará para nos levar a outra festa de Ano Novo, setenta anos antes em Estocolmo, Suécia. É aqui que começa a saga da família que tanto teria impacto no Brasil.

Tal como fez com “A vida invisível..”, Batalha usa seus personagens para narrar ou trazer à tona questões da época de cada um mostrando a evolução ou os principais acontecimentos. Se em sua primeira obra ela trata do machismo, principalmente, mostrando que mulheres brilhantes viraram donas de casa, em “Nunca houve um castelo” ela se empenha em contar muito mais. Através da família Jansson, somos apresentados à fundação de Ipanema, a ditadura militar, a revolução sexual, a onda feminista dos anos 70-80 e ao início da epidemia de AIDS que marcaram de forma definitiva as gerações da família e a sociedade brasileira.

Como deveria ser, Batalha é mais ambiciosa em sua segunda obra. E por vezes isso funciona. E por vezes não. Algo que podemos já decidir aqui é que Batalha é uma grande criadora de personagens. Cada um que aparece na obra tem uma história própria interligada aos protagonistas e os afetam de alguma maneira. Porém, o número de personagens que aparecem na obra é extenso. Muitas vezes, esquecemos de quem é a história que devemos seguir porque as linhas se perdem e o centro da obra parece mudar.

Estela e Otávio Jansson são os protagonistas, mas eles só aparecerão de verdade depois da metade do livro. Até lá, vamos descobrir como os avós paternos de Otávio foram responsáveis por mudanças em Ipanema com detalhes, como foi a infância de seu pai (Nils que, mais velho, virou Nilson) depois da morte do patriarca e da matriarca da família até chegar no pequeno Otávio. E aí teremos também uma linha que nos apresenta à história da mãe dele, Guiomar e aos pais de Estela.

É como se recebêssemos um report completo da linha genealógica da família com mais contexto, claro. Mas há trechos que nos faz questionar se realmente precisariam estar ali. Enquanto em “A vida invisível…” tudo parecia completar um roteiro exato da vida de Eurídice Gusmão, aqui há muitas sub-histórias do Jansson e outros personagens que não parecem agregar tanto assim. Esses sub-enredos travam o ritmo da leitura e deixam a obra um pouco mais cansativa.

Um outro ponto é que com tantos temas a cobrir, a maioria deles quase que desaparece no total. Ao falar sobre Beto, que acaba preso pela ditadura e é torturado pelo DOI-CODI é quase como se a importância do que aconteceu ali se perde no grande contexto das coisas. Claro que a edição é importante – Ken Follet escreveu sobre cinco família durante o século XX afetadas pelos acontecimentos políticos e isso resultou em 3 tomos de 1000 páginas cada. Ou seja, a menos que Batalha quisesse escrever algo assim, alguns temas acabariam por ser abordados de maneira mais superficial.

Batalha está acima da média, é inegável. E mesmo com alguns trechos mais enroscados, a obra ainda é divertida com momentos intensos e personagens críveis e bem construídos.

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O livro foi enviado pela editora.

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