Resenha – NW
por Patricia
em 21/01/15

Nota:

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Zadie Smith está no meu radar há tempos. Já ouvi falar de mais de um de seus livros, mais de uma vez e por fonte diferentes. Aclamada por sua primeira obra – Dentes Brancos – lançado quando tinha apenas 24 anos – a autora parece que tem sido constante no quesito qualidade em suas publicações. NW foi lançado em 2012. Foi o primeiro livro que li da autora apesar de já ter comprado tanto Dentes Brancos quanto seu terceiro trabalho intitulado Sobre a beleza (indicado ao Man Booker Prize).

NW é, colocando de maneira simples, uma aula de como elaborar personagens. Temos quatro personagens principais originários de North West London, um bairro pobre, de maioria negra de descendentes caribenhos e africanos. Leah Hanwell é uma exceção. Descendente de irlandeses e ruiva, ela aguenta diversas piadas de suas companheiras negras em seu trabalho – inclusive alguns comentários sobre como as “irmãs” ficam triste de ver um cara bom como Michel (marido de Leah e negro francês-argelino) casado com uma branca.

Temos também Natalie Blake – originalmente Keisha Blake – que estudou loucamente para sair daquele bairro e tornou-se advogada; casou com um italiano rico (negro) e criou para si uma carreira e uma família no melhor modelo ‘perfeição’. Mas, claro que nem tudo são flores e Natalie e Frank vão enfrentar seus problemas de uma maneira ou de outra. Quer seja a distância entre eles enquanto dedicam-se ao trabalho (Frank é banqueiro), quer seja a vontade de Natalie não apenas de se livrar do passado como também de tentar ter algo empolgante na sua vida – o que gera um caso tórrido de marido descobrindo coisas obscenas que a mulher transportou da internet para a vida real.

Natalie é a personagem que traz o contraste de pobreza e riqueza para o livro. Apesar de sua família continuar vi vendo em NW onde todos ainda a conhecem como Keisha, ela vai perdendo a noção do que é a pobreza de verdade.

O livro é dividido em partes: a primeira dedicada a Leah, a segunda a Felix (que, sinceramente, achei a parte mais baixa do livro), a terceira retorna para Natalie, a quarta foca em Natalie mas com passagens sobre Nathan (amigo de colégio das duas moças. Possível promessa de sucesso na juventude, Nathan agora é viciado em crack); e a quinta é algo como um reencontro.

Com personagens tão diferentes e com tantas questões pessoais a serem desenvolvidas, é impressionante que Smith consiga fazer tudo isso de maneira limpa. É possível terminar o livro e não apenas conhecer bem cada personagem, mas entender seus pontos de vistas, suas decisões e suas tragédias. Mais do que a criação de cada um, é a escrita de Smith que transborda criatividade e compaixão.

Smith nos apresenta um prato interessante – e amargo – a ser degustado. De personagens esquecidos pelo sistema a aqueles que se salvam apesar dele, o que NW nos permite é entender que até mesmo questões raciais podem ser tratadas de maneira objetiva, sem exageros. De fato, Smith usa expressões como “alma de branca” para descrever uma negra que copia as manias de brancos, ou um personagem deixa claro os privilégios de Leah pela cor de sua pele. Não se engane, o tema ‘raça’ está aqui, mas eu diria  que injustiça é um tema muito mais pertinente, ou até mesmo, as diferenças culturais que hoje são possíveis de encontrar em megalópoles como Londres.

Quanto a escrita e estética, cada parte tem uma estrutura diferente: a primeira conta com capítulos às vezes fora de ordem, indo e vindo na história e trechos sem pontuação, mas que mesmo assim não é confusa e segue um ritmo próprio. A segunda é uma narração típica, que corre pelos capítulos com prontidão. A terceira é contada em tópicos, como um diário em que só se escreve um resumo dos pontos mais importantes. A quarta parte tem mais diálogos e nos posicionam para entender o passado de Natalie e Nathan sob um outro prisma.

Cada personagem tem seu desenvolvimento feito sem pressa, sem subterfúgios, sem manias bestas. São todos tão reais que você pode até reconhecê-los em familiares e amigos. Esse é o trunfo de NW. Smith conseguiu transportar para as páginas, personagens tão reais e sinceros que é quase impossível não se afundar no livro. Li todas suas mais de 300 páginas em 3 dias.

Valeu cada caneca cheia de café da madrugada.

PS: A Ju do Pintassilgo fez uma resenha bem detalhada do livro e deu apenas duas estrelas. Caso queiram uma opinião diferente, a resenha dela está aqui.

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