Resenha – O aleph
por Patricia
em 29/07/14

Nota:

12401 - Primeira poesia

Desde que peguei meu primeiro livro na vida e comecei a falar com as pessoas sobre livros eu ouço “Você já leu Borges? Você precisa ler Borges!!”. Várias pessoas em vários momentos me disseram a mesma coisa. Apesar disso ter me deixado com vontade de ler o autor, eu estava guardando a oportunidade para começar com um clássico. O Aleph parece ser o livro mais comentado pelos entusiastas do autor e, por isso, decidi começar minha jornada por Borges lendo esse mesmo.

Peguei o livro sem saber nada sobre a história e sem muitas expectativas porque, por mais que o cara seja adorado, ele também é argentino e a única coisa que aceito da Argentina sem questionar é uma picanha. E um tango de Gardel. Fora isso, eu mantenho o pé no chão e a cabeça com dúvidas. 😉

Mas vamos ao livro.

O Aleph é um conjunto de contos. Cada novo título é um conto novo, mas no mesmo estilo e cheio de referências das mais distintas. Os assuntos são variados: imortalidade e, consequentemente, o tempo; civilização e civilidade, religião e essas coisas que geram debates infinitos e conclusões escassas. Mas já aviso, um leitor desavisado pode cair nesse livro e ficar completamente perdido. Os contos não têm conexão, ainda que em alguns momentos isso seja possível – por conta do leitor, apenas.

No entanto, não é a falta de conexão que causa estranheza – é a linguagem do autor, que muitos definem como sendo de uma intelectualidade extrema. Ele cita filósofos, mitos, histórias bíblicas e afins com uma facilidade que pode deixar o leitor um pouco tonto. Nesse momento, a fluência da leitura pode ser impactada e exige uma atenção redobrada. Confesso que em alguns momentos, tive que retornar e reler algumas páginas.

Se tem algo de importante a ser dito é que há na escrita de Borges algo que vai direto na jugular da vontade do leitor de ler mais. Li um conto e não entendi nada. Então voltei, reli e entendi alguma coisa. Passei para o próximo. Depois voltei ao primeiro. E nesse ritmo um tanto frenético, percebi que o autor estava me conduzindo por labirintos de pensamentos, dando volta em assuntos que – acho eu – são extremamente interessantes. Isso tudo em um livro de 160 páginas.

Tentei tirar algumas citações do livro, mas tudo parece desconexo quando citado sem o restante do conto ou sem trechos extremamente longos. A idéia era tão maior do que as citações que eu havia separado que elas não faziam sentido por si só (tentei duas vezes, uma até que deu certo).

Quanto ao narrador de cada conto, varia consideravelmente. Alguns são em primeira pessoa, outros em terceira e até o próprio Borges aparece narrando um conto (Zahir). Meus preferidos foram: O imortal (que se virasse livro eu compraria feliz) e O homem no Umbral. Ao final, tem um pósfácio do autor comentando até mesmo algumas influências para alguns contos.

Publicado em 1949, o livro é parte do gênero que denominam de realismo mágico latino americano; ao qual também pertence meu amado Cem anos de solidão de Garcia Márquez. Apenas uma questão é importante ressaltar: esse é um livro de um nível avançado. Tão avançado que suas 160 páginas não podem dividir sua atenção. Todas as vezes que tive que reler um conto foi porque eu me atrapalhei com outro livro que estava lendo. Então Borges não facilita leituras simultâneas, ele exige foco total.

Terminei o livro sentindo que precisava atualizar minha lista. A partir de hoje, portanto, aceito de bom grado: uma picanha argentina, um tango de Gardel e um livro de Borges.

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3 Comentários em “Resenha – O aleph”


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Gabriel Cavalcante em 29.07.2014 às 13:04 Responder

Li umas 50 páginas dO Aleph na Livraria Cultura esses dias, no original em espanhol. Estou babando até agora, preciso voltar pra esse livro.

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Paty em 29.07.2014 às 13:14 Responder

É muita força de vontade ler 50 páginas e não comprar o livro. hahahahahha Mas sim, leia todo. Vale muito a pena. 🙂

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Mateus Octávio Alcantara de Souza em 04.10.2016 às 17:56 Responder

Comecei a estudar espanhol para ler Borges no original, porque a maioria dos autores contemporâneos que eu seguia leram ou indicaram ele. Acabei percebendo a alta proximidade das línguas e resolvi começar O Aleph em português mesmo. É um texto muito próximo dos clássicos antigos e medievais, por isso é uma leitura muito densa. Mas realmente vale a pena. Quando tiver a oportunidade, faça por favor uma resenha específica sobre o conto Os teólogos; quando achei essa resenha aqui estava atrás disso na verdade 🙂

Abraços.


 

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