Resenha – O ano da leitura mágica
por Patricia
em 09/11/15

Nota:

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Nina Sankovitch começa o livro nos contando sobre a luta que sua irmã mais velha, Anne Marie de então 46 anos, travava contra o câncer. As chances não eram boas e acompanhamos Nina e sua família nos últimos dias de vida de Anne Marie. A partir dali, Nina começa a viver os estágios da dor e da perda e por três anos tenta encontrar uma maneira de lidar com a morte de uma irmã que, para ela, era um ideal.

Depois desses três anos, ela decide mudar o foco e cria um projeto baseado em um amor comum em sua família: os livros. Ela decidiu que leria um livro por dia durante um ano e usaria os livros como um guia para a tristeza e a necessidade de manter as lembranças de sua irmã – também leitora voraz – ainda vivas. Nascia assim o projeto que ela relataria diariamente em seu blog Readallday.org. O desafio consistia de não apenas ler um livro por dia, como também nunca repetir um autor e resenhar todos os livros lidos, sem exceção. Além disso, como mãe de 4 meninos, Nina não poderia deixar nenhuma de suas obrigações com a família de lado. A proposta parecia insana.

À medida em que caminha em seu projeto, Nina encontra conforto e maneiras de dividir as lembranças que tem de sua irmã e de sua infância. Ela conta sobre a vida dos pais na Europa durante a Segunda Guerra, os traumas, as cenas chocantes, as tragédias e como certas leituras a faziam lembrar de histórias que ouviu de seus pais. Os livros a alertaram que realidade ia muito além de sua sala de jantar: no mundo todo havia pessoas passando por coisas similares e que estavam, talvez naquele exato momento lendo, os mesmos livros. Essa linha de identificação que pode parecer fina demais para algumas pessoas, serviu como uma linha salva-vidas que a manteve acima da mágoa durante o turbilhão da perda da irmã.

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O ano da leitura mágica serviu para me lembrar que cada um tem uma relação específica com cada livro que lê. Alguns não conseguem se separar nem mesmo de livros ruins, criando um catálogo do bom e do péssimo. Outros, não guardam leituras ruins por nada no mundo, evitando rever aquilo que já foi trágico. Há ainda pessoas que não guardam livros, preferindo apenas tê-los em mãos momentaneamente e sem ocupar espaço físico.

Não importa o tipo de relação que se tem com os livros, apenas quem desenvolveu algo similar pela leitura vai compreender. Nina Sankovitch encontrou em seu relacionamento com os livros a força para lidar com uma perda inimaginável. Seus relatos podem por vezes seguir uma linha auto-ajuda pelo tom recheado de reflexões pessoais de superação:

Ler um livro por dia durante um este ano estava limpando minha mente do mesmo jeito que meu trabalho limpou a bagunça no jardim. Eu estava em meio a uma confusão de dor e de medo. Minhas leituras, às vezes doloridas e em geral exaustivas, estavam me tirando as sombras e me levando para a luz. E eu não sou a única que está se livrando das ervas daninhas e da hera ou que está plantando belas flores perenes de esperança. O mundo está cheio de gente assim, que escava e limpa, trabalhando para o dia em que as flores voltarão como se deve, florescendo ano após ano. (pag. 142).

Meu ano lendo um livro por dia foi meu ano num sanatório. Foi meu ano longe do ar contaminado pela raiva e pelo luto que preencheram minha vida. Foi uma fuga para as brisas medicinais nas colinas dos livros. Meu ano de leituras foi meu próprio hiato, minha própria interrupção no tempo entre a avassaladora dor entre a morte da minha irmã e o futuro que agora me aguarda. Durante minha trégua de um ano com livros, eu me recuperei. Mais do que isso, aprendi a viver depois do período de recuperação. (pág. 208)

Livros são realmente mágicos e a autora também acredita nisso como qualquer viciado em literatura. Além disso, por causa de alguns comentários dela, mais ou menos 20 livros entraram na minha lista de desejados. Ao final do livro, tem a lista completa de tudo o que ela leu no ano. Uma lista compreensiva que passa por nomes de peso como: Don Delillo, Junot Díaz, Roberto Bolaño, Albert Camus, Mia Couto, Hemingway, Saramago até títulos de entretenimento puro como Crepúsculo (que ainda entra na categoria entretenimento xoxo) e Marley e Eu.

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Pessoas que encontram conforto nos livros nem sempre conseguem explicar isso para não-leitores. É difícil de passar a mensagem de que em algum lugar, algum autor conseguiu escrever exatamente o que você precisava ouvir, mas que nenhum conhecido conseguia falar.

Essa identificação entre leitores é o que faz com que O ano da leitura mágica seja realmente bom. O livro vai além de nos contar sobre a experiência de perda, mas mostra como os livros podem, sim, ser uma fonte excelente de conforto. Não apenas de diversão e entretenimento, mas podem chegar a ser muito mais do que apenas palavras numa folha quando lidos no momento certo. Há livros que podem nos confortar apenas por estarem ali: carregar um livro junto quando se visita um lugar diferente, por exemplo, pode ser muito reconfortante – algo que você reconhece em meio ao desconhecido.

Ao convidar leitores para dividir esse projeto, a autora abre um pouco de si mesma e entrelaça sua própria história naquelas que lê em obras de autores diversos.

Uma leitura divertida, fluída e danosa para fãs de projetos literários como eu que pretendem ler todos os livros do mundo e cujas listas de “vou ler” crescem todos os dias. Um livro sobre livros em essência. Uma biografia adorável nas entrelinhas.

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