Resenha – O ano do macaco
por Poderoso
em 13/01/20

Nota:

2016 foi O ano do macaco na tradição chinesa. E este foi título escolhido por Patti Smith para seu novo livro, lançado este ano pela Companhia das letras. Não à toa, o livro foi escrito durante 2016 e em plena ebulição das eleições nos EUA.

Porém, apesar da grande mídia ter dado destaque a este fato na narrativa do livro, considero que o fato em si é o menos citado. A não ser por um texto específico, em que ela relata o dia do resultado da eleição e de quem o ganhou. Não vou citar o nome dele aqui em respeito a Patti que, durante todo o livro, também não o cita.

Acho que na verdade o livro traz muito dos sentimentos dela nesse momento de passagem dos seus 69 para os seus 70 anos. E toda sua reflexão sobre sua vida e o seu próprio processo de envelhecimento e todas as perdas que ela vivencia.

Ao longo do livro ela nos narra a perda de dois grandes amigos – Sandy Pearlman e Sam Shepard. E mesmo com todas essas perdas e o contexto político mundial e a crise ambiental, ela continua acreditando que amanhã será um dia lindo. Sim, ler Patti Smith é ter esperança no futuro.

O ano do macaco é o livro mais diferente dela lançado no Brasil, desde Só garotos. Ele é um livro de memórias, mas estas memórias estão misturadas com sua vida cotidiana atual. E para trazer estas memórias e a realidade daquele ano de 2016 em sua vida, a autora usa como recurso narrativo os sonhos.

Não foi um livro que me emocionou muito. Embora compreenda que aqui temos a Patti trazendo sua faceta escritora mais aprofundada, usando de recursos literários para nos contar seu diário – do agora e do passado. Fiquei dias matutando sobre o livro e cheguei à conclusão que achei ele apenas bom. Mas mesmo assim ele é lindo no que se propõe. Patti Smith abrindo seu diário para nós.

Por Juliana Costa

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Patti Smith é uma artista, na essência da palavra. Prova disso é a sua versatilidade em vários estados da arte (música, fotografia, poesia, escrita), mas nem sempre isto lhe garante o status de intocável. E talvez O ano do macaco seja uma prova disso.

Neste terceiro capítulo de sua aventura pelo universo da memória, Patti mantém em voga algumas características presentes nos dois volumes interiores (Só garotos e Linha M) ao optar por linhas autobiográficas com verniz poético. Mas se anteriormente a escolha por esta estrutura acabava por gerar comoção e aproximação do leitor, que via na escritora uma figura pública com a qual se poderia identificar, neste novo trabalho optou pelo distanciamento.

Mas calma: O ano do macaco está longe de longe de ser uma leitura descartável. É deveras interessante que nesta obra ela assuma a persona de Jack Kerouac (On the Road) aos revelar o seu lado andarilha solitária. E durante o seu vagar ela traz à tona suas reflexões sobre a morte, o valor da amizade, a importância arte (mais especificadamente da leitura) e a política norte-americana (na malfada era Trump).

Porém, se anteriormente suas impressões eram guiadas pela linearidade, aqui a exposição dos fatos ganham ares oníricos que, por mais que tenham sua beleza natural, acabam por vezes resultando num exercício que seja intangível, difícil de diluir, tamanha as camadas impressas que se assemelham a um labirinto chamado fluxo de consciência.

Numa alusão rápida O ano do macaco soa como um álbum de transição, no qual uma banda com carreira consolidada decide por seguir numa linha mais experimental, buscando novos desafios ao seu fazer artístico. Há quem goste, claro, mas se você quer se iniciar pelo universo de Patti Smith volte duas (ou uma) casa(s).

Por Bruno Lisboa

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Livro enviado pela editora

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