Resenha – O apocalipse dos trabalhadores
por Bruno Lisboa
em 31/01/18

Nota:

 

Valter Hugo Mãe (pseudônimo do escritor angolano Valter Hugo Lemos) é um dos maiores escritores de sua geração. Multi premiado, o escritor, artista plástico e cantor é dono de um modo de escrita muito particular, mantendo vivo o legado deixado por José Saramago. Prova disso é O apocalipse dos trabalhadores, livro de 2008, mas relançado aqui no ano passado pelo selo Biblioteca Azul da Globo Livros.

A associação a Saramago, aliás, não é gratuita. Assim como o escritor português, Mãe adota um estilo próprio de escrita. Se Saramago não adotava paragrafação, o escritor angolano grafa todo o texto em letras minusculas. Ambos conseguem a partir de suas escolhas imprimir ritmo que em muito se assemelha ao nosso quotidiano. Não obstante, outro elemento comum é modo de observar a vida, em minúcias, para mostrar o quão massacrante (e bela) ela o é.

A narrativa gira em torno da rotina diária de duas empregadas domésticas (Maria das Graças e Quitéria) que trabalham em Portugal. Maria trabalha na casa do senhor ferreira, um senhor solitário. O relacionamento entre patrão e empregada se desenvolve autossuficiente, mesmo que de forma abusiva por parte dele que a explora sexualmente. Ainda sim ele desenvolve uma paixão pelo chefe. Ela é casada, com Augusto, mas ele é um marido ausente que viaja o tempo todo pelos mares do mundo como marinheiro.

Se a vida de Maria tem a sua carga de dramaticidade, a de Quitéria (sua melhor amiga e confidente), por sua vez, responde pela parte cômica da obra. Seu modo de pensar a vida (de forma mais leve) e sua busca por um grande amor de forma desenfreada rendem alguns breves respiros (tal como no trabalho que desenvolvem como carpideiras) em meio as várias pancadas/reflexões que o livro promove. Sua vida vira do avesso a partir do momento que conhece Andryi, um ucraniano refugiado em Portugal em busca de uma vida decente. Inicialmente o rapaz se demonstra frio e distante, mas no decorrer da narrativa, a medida em que a sua vida sôfrega e a de seus pais é revelada, o rapaz que tencionava a se tornar uma “máquina” acaba por se tornar um homem frágil e sensível.

Tal como o finado cineasta Ingmar Bergman (que é citado no livro), Mãe consegue em O apocalipse dos trabalhadores a partir da observação de um micro universo obter uma macro visão acerca do mundo. Amor, sexo, religião, a modernidade, a morte, o papel delegado a mulher num mundo machista são algumas das temáticas discutidas no decorrer de suas 200 páginas.

Se a primeira impressão é a que fica, minha primeira incursão no universo de Mãe foi por deveras memorável. Espero num futuro não muito distante voltar a explorá-lo.

****

O livro foi enviado pela editora. 

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – O apocalipse dos trabalhadores”


 

Comentar