Resenha – O bebedor de horizontes
por Patricia
em 21/05/18

Nota:

 

“O bebedor de horizontes” fecha a épica trilogia de Mia Couto sobre a luta de Portugal contra o Imperador de Gaza, no Moçambique ao final do século XXI. Já falamos do primeiro e segundo volumes.

Imani segue como nossa guia principal neste terceiro volume enquanto seguimos acompanhando as picuinhas dentro do exército português, a busca por glória e redenção de soldados, que parecem saber pouco sobre o que fazem ali, e um imperador sujeito aos tratos de homens brancos que sabem nada de cultura e costumes, apenas vencedores e vencidos.

Germano, pai do filho que Imani carrega, passa o livro todo em busca de se encontrar com ela para, enfim, se tornar o homem que acha que deve ser. Mas ao final, sua covardia e as pressões sociais tomarão dele qualquer sinal de confiança…os preconceitos que ele sabe que encontrará fazem com que abra mão do que pareceu buscar sempre. Confrontado por seu papel como um soldado português e o homem que faz a coisa certa perante a mulher que ama, o soldado grita mais alto.

Germano é apenas uma das tragédias na vida de Imani. Se no primeiro volume aprendemos que, para os moçambicanos, as mulheres ficavam em constante estado de espera para se tornarem mães. Aqui vemos Imani enfrentando a pilhagem comum da Europa à África: promessas que não são cumpridas; seu corpo deixa de ser seu porque homens brancos acham que têm direitos a ele e seu filho é arrancado de suas mãos porque é clarinho o suficiente para se passar por branco. Imani é uma mulher africana em todos os tempos: se sua história fosse contada ontem, poderia ser exatamente a mesma.

Preso, o imperador Gugunhanha vira um símbolo da África selvagem e é apresentado em Portugal, como se faz com os bichos exóticos que todos querem ver, mas ninguém quer tocar. Os portugueses criaram um imperador muito mais poderoso do quer era realmente para que se validasse a narrativa de sua vitoria. Afinal, de que vale conquistar alguém que se entregou? Só há mérito em honra na batalha contra um oponente feroz que luta até o fim, mesmo que isso seja apenas uma das versões. No fim, se a história é contada pelos vencedores e a língua dos vencidos é obliterada. Quem poderá refutar o que se diz?

O encerramento da trilogia é tudo o que esperamos de Mia Couto e mais. Um obra épica, que vale cada minuto, cada linha, cada capítulo. Se já sabemos que ler Mia Couto é uma experiência por si só, ler esta trilogia consolida sua reputação como um dos maiores autores contemporâneos da língua portuguesa e da literatura africana.

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O livro foi enviado pela editora. 

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