Resenha – O Berro do Bode
por Juliana Costa Cunha
em 15/04/19

Nota:

O berro do bode, título deste livro, é o último conto dele. Um conto que me deixou completamente arrepiada com seu final. Nele, acompanhamos a vida de uma mulher que deseja muito engravidar e tenta com vários parceiros, porém sem sucesso. Até que procura uma determinada mulher, que eu identifiquei como sendo um bruxa, ou curandeira da região, para a solução de seu desejo. O parágrafo final, com o “sonho” da moça realizado é de tirar o fôlego. É incrível a força da linguagem imagética que a autora, Verena Cavalcante, imprime neste, e nos outros 9 contos do livro.

Verena nos apresenta histórias com alto teor de sagrado e profano. E de nascimento e morte. As histórias parecem ter sido narradas a ela ao longo dos anos por suas avós, a quem dedica o livro. Os contos narram passagens xamânicas, bem como um resgate de uma ancestralidade selvagem.

A autora é detentora de uma linguagem ácida e de humor corrosivo, que não deve agradar a todos. Passeia com maestria entre o hibridismo do humano com os animais, a exemplo do primeiro conto “Tempestade” no qual uma menina vai viver com cachorros e “Porquizôme” no qual um menino tem uma estreita relação de afeto com um porco (e me lembrou muito Hilda Hilst). Além disso, várias referências a características humanas são associadas a aspectos físicos de animais – “mãos aracnídeas”, por exemplo.

Vale dizer que “Porquizôme” e o conto “Bonecas” me reviraram o estômago pela temática explícita da violência contra crianças. No primeiro, a violência física. No segundo, o abuso sexual. A sonoridade da escrita e a força das imagens narradas, são puro nocaute.

De fato, O berro do bode, não é um livro divertido. Ele aborda temas pesados e é escrito de forma crua. Há um conto intitulado “Missivas póstumas” que apresenta cartas escritas a pessoas ou animais que já morreram, mas não são cartas românticas, muito pelo contrário. Porém, em vários momentos dessas missivas me vi dando risadas. Repito, Verena tem humor ácido e irônico e tira com muita sensibilidade o que de melhor existe nessa possibilidade narrativa.

Indico muito a leitura deste livro que, embora curtíssimo, não me foi possível ler de uma levada só. E que possamos ler mais e mais autoras e autores contemporâneos potentes!

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Livro enviado pela editora

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