Resenha – O cerne da questão
por Patricia
em 07/08/19

Nota:

Graham Greene é daqueles nomes que já ouvi falar muito, mas nunca tive contato direto com as obras. Tenho quatro livros do autor: “Nosso homem em Havana”, “O americano tranquilo” (que já foi adaptado para o cinema duas vezes), “Os farsantes” e “O cerne da questão”.

A Biblioteca Azul, selo da Globo Livros, está relançando a obra do autor (já foram 6 até agora) com um belo trabalho em cada edição. Comecei meu contato com o autor por “O cerne da questão” porque foi a obra sobre a qual menos ouvi falar.

**A resenha pode conter spoilers.

Nesta obra, acompanhamos o Major Henry Scobie que é um policial na Libéria – colônia britânica – durante a Segunda Guerra. Scobie é um policial diferente dos demais britânicos que trabalham na colônia: além de ser um católico devoto, ele é um dos poucos, ou o único, que não aceita subornos e não usa seu cargo para conseguir benesses dos locais. Chega a ser uma piada entre os outros.

Seu principal trabalho é inspecionar os navios que param ali e se encaminham para a Europa – há suspeitas de um mercado ilegal de diamantes. Sua esposa, Louise, não aguenta mais viver na Libéria e quer ir para a África do Sul, onde ela tem amigas. Porém, o custo de enviá-la está muito além do que o casal pode arcar.

O autor se converteu ao catolicismo aos 24 anos e a obra quase escorre a culpa católica. Scobie se sente responsável pela felicidade da esposa e se penaliza por não conseguir dar a ela o que ela quer. A primeira parte da obra é toda dedicada à difícil decisão de Scobie de aceitar dinheiro de um agiota para que a esposa possa viajar.

Antes disso, porém, ele aceita destruir uma carta suspeita que um capitão português ia enviar para sua filha. Todas as cartas deviam passar pela censura para evitar que contivessem códigos e afins. Essa primeira corrupção abre uma porta inesperada. É quase como se o primeiro risco no quadro de Dorian Gray surgisse aqui. E uma vez riscada, a obra já não vale muito. Scobie parece saber disso a um nível subconsciente. Ele tenta manter suas crenças, mas não demora muito e ele aceita o dinheiro do agiota.

Cada corrupção parece destruir um pouco da fundação de Scobie. De repente, ele começa a questionar sua religião e seu deus. Quando náufragos de um navio afundado aparecem na costa, uma das sobreviventes chama sua atenção de uma maneira que talvez não acontecesse antes. A essa altura, Scobie já está corrompido por completo: sua alma, sua palavra, sua profissão, seu status.

A escrita de Greene é muito boa. Confesso que grande parte da alegria de ler a obra foi experimentar essa escrita. Por outro lado, temo que ele tenha focado tanto em Scobie que deixou o desenvolvimento dos demais personagens de lado:

Isso para apenas destrinchar os principais. Pretendo ler mais alguma obra do autor na esperança de encontrar personagens tão bem desenvolvidos quanto seus enredos e, talvez, menos culpa enterrada nos personagens.

***

O livro foi enviado pela editora.

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