Resenha – O conto da aia
por Bruno Lisboa
em 13/05/19

Nota:

Historicamente, muita obras literárias do século passado conseguiram de maneira impar e futurista prever qual seria o nosso futuro (e o quão tenebroso ele seria). 1984 (de George Orwell), Admirável Mundo Novo (de Aldous Huxley) e Não vai acontecer aqui (de Sinclair Lewis) são alguns exemplos de narrativas que para época poderiam soar distantes da nossa realidade, mas hoje contextualizam bem o momento tenebroso que estamos vivendo em muitos sentidos. E neste seleto hall também está O conto da aia de Margaret Atwood.

Lançado em 1985, a autora colheu frutos da obra que lhe rendeu diversas premiações como o aclamado prêmio Arthur C. Clarke (prêmio mor da ficção científica literária) em 1987. Na mesma época a mesma ainda foi indicada ao “Booker Prize”. A repercussão da obra renderia nos anos seguintes diversas adaptações para várias mídias como o teatro, o cinema e mais recentemente uma elogiada série de TV.

Ambientando num futuro distópico (mal explicado no livro e melhor retratado na série) a narrativa nos coloca ante a um mundo dominado pelo militarismo, por um governo de extrema direita e a valores ultra religiosos . As pessoas tidas como “libertinas” que “destruíram” o mundo agora viviam sob as rédeas do estado que determina o posto que cada um deve ocupar na sociedade chamada aqui de Gilead.

A personagem central é June (ou Offred) que antes vivera uma vida normal ao lado de Luke (seu esposo) e da filha, agora é uma aia que está sob a “tutela” de um comandante do exército (Fred) e sua esposa (Serena Joy). Sua função na casa é fazer pequenos serviços (compras geralmente) e gerar um filho para que seus “padrinhos” possam cuidar, já que a taxa de natalidade está abaixo da média devido ao fato de que muitas mulheres não serem mais férteis.

A protagonista tenta, durante certo tempo, seguir a risca o que lhe era imposto, mas a medida em que percebe uma revolução sendo arquitetada para implodir o sistema opressor ela começa a repensar suas ações.

Ao longo da obra, Atwood deixa clara várias lições ligadas a periculosidade que é seguir ideias conservadoras, ligadas ao extremismo político/cristão, a adoção de valores patriarcais e ao sistema de castas. E se a ficção de ontem pode ser a realidade do amanhã, o cenário que vem se desenhando mundialmente, em muito, se aproxima ao que vemos hoje.

O recrudescimento de valores arcaicos, que pareciam ter sido revogados devido ao avanço promovido por décadas de discussões políticos/sociais, agora retomaram fôlego. Infelizmente os mesmos dominam o pensamento de uma sociedade cega que aceita, passivamente, o que o sistema opressor impõe. Isto só acaba por atestar o que a autora já previa.

Como lição final Atwood deixa nas entrelinhas que é necessário desafiar as “mãos que te alimentam” para reverter o que deve ser mudado. Então é hora de deixarmos de lado o comodismo e partirmos para um linha de frente em prol do enfrentamento a um inimigo comum.

Afinal como é dito na obra em momento crucial: “Nolite te bastardes carborundorum” (“Não permita que os bastardos reduzam você a cinzas”). Ainda há tempo.

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