Resenha – O demônio na cidade branca
por Patricia
em 11/12/17

Nota:

 

Erik Larson já passou no Poderoso com o ótimo “No jardim das feras” – livro que retrata a vida de um embaixador americano na Alemanha de Hitler. Na época, o estilo novelesco que o autor utiliza para contar fatos reais fez com que a leitura fluísse lindamente. Com “O demônio na cidade branca” não foi diferente.

O estilo é o mesmo: Larson narra fatos reais. Aqui, somos apresentados ao arquiteto Daniel H. Burnham – responsável por desenvolver o que seria a maior feira do mundo na época (1893) e que marcou Chicago de várias maneiras. No livro, há a questão política por trás da escolha da feira, a apresentação da arquitetura da época que mudou a cidade, a vida pessoal de Burnham e….até, bom, um serial killer.

H. H. Holmes era um homem simples, mas o clássico trambiqueiro. Encantava a todos (e principalmente todas), mas escondia segredos obscuros. Formado em coisa nenhuma, virou farmacêutico e ganhou certo dinheiro e notoriedade em Chicago. Através de trambiques clássicos, conseguiu construir um prédio que serviria de base para alguns de seus negócios e também para seu hobby preferido.

Em 1893, o desaparecimento de jovens mulheres na cidade era visto como quase normal pela polícia. Com poucos membros e quase nenhum recurso, a polícia não podia investigar todos os casos reportados. Além disso, a cidade atraía cada vez mais pessoas interessadas em participar e visitar a feira – que prometia ser um evento único. De fato, a feira trouxe para os Estados Unidos – e o mundo – coisas que vemos até hoje. Por exemplo, foi ali que vimos a primeira roda gigante – projetada em uma tentativa de superar a Torre Eiffel que a França havia apresentado na Feira de Paris quatro anos antes. Na feira de Chicago surgiu também a primeira cadeira elétrica. Até então, todos os condenados à morte eram enforcados. E isso para citar apenas algumas coisas.

No livro, acompanhamos o descompasso entre a mente de Burnham – que parecia muito à frente de seu tempo – e a realidade.

O tema é todo muito interessante, mas há capítulos que quebram um pouco o ritmo da leitura – se estamos falando de um assassino e de uma feira marcante, discutir as dificuldades do paisagista fica um pouco…bem, irritante. Ainda que ele tenha sido um renomado paisagista nos Estados Unidos, me parece que o tema em si é secundário. Porém, isso também demonstra o nível de pesquisa que Larson fez para a obra. O próprio autor aborda sua pesquisa no prólogo explicando que sempre busca fontes primárias fora da internet. Foi assim que encontrou e viu, ao vivo, itens que a internet poderia apenas representar – como as cartas de um jovem perturbado para o então prefeito da cidade. O autor descreve que “viu a raiva na força com que o lápis marcou a folha”. Esse tipo de pesquisa minuciosa entra como detalhe da história trazendo realidade ao que poderia ser monótono.

No fim, as melhores partes do livro são os trechos que envolvem Holmes e sua calma psicopata em matar. Nesses capítulos, o livro ganha contornos de literatura policial que fazem com que a leitura seja mais acelerada e interessante. Aliás, em 2016 foi anunciado que Martin Scorsese adaptaria o livro para o cinema com Leonardo DiCaprio no papel de H. H. Holmes.

“O demônio na cidade branca” mostra os dois lados do homem – a ambição e a destruição equilibrados por uma cidade vivendo uma de suas piores crises econômicas; além de dois lados de Chicago: a cidade que buscava a glória e o futuro, mas que combatia um lado escuro e violento. É uma história de redenção e morte escrita de forma a guiar o leitor por um caminho tortuoso, mas instigante.

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