Resenha – O desaparecido
por Thiago
em 21/06/17

Nota:

 

Esta é a primeira vez que leio um livro de literatura de um israelita (antes apenas acadêmicos). Ultimamente venho buscando conhecer literatura de países que fogem da rota literária tradicional, e o livro de Dhor Mishani foi uma grata surpresa. Não tinha grandes expectativas, na verdade não sabia o que esperar. O autor me chamou a atenção ao ler sua descrição atrás do livro e ver que ele é um acadêmico especializado em literatura policial. Além disso “O desaparecido” é o primeiro livro de literatura policial do autor, publicado em hebraico em 2011, e o primeiro lançado em português neste ano pela Companhia das Letras.

É possível notar a influência acadêmica na obra, mas não de maneira pedante que prejudique o andar da história, mas mais como uma crítica ao universo dos romances policiais. Tenho certeza que este reflexo no livro não agradará muitos leitores, mas gostei muito. Antes de falar da trama vamos falar sobre Avraham Avraham, o detetive criado pelo autor e que estrela este e outros livros ainda não traduzidos para o português. O que este policial tem de especial? Nada, simplesmente nada, e é isso que o torna extremamente diferente e interessante. Diferente de vários outros detetives este aqui é normal, triste e entediado, comete erros, se emociona, se distrai e tem uma vida chata como a maioria das pessoas. Avraham é tão real que não parece o personagem principal de um romance policial.

Breve sinopse: um adolescente desaparece num pacato subúrbio de Tel Aviv, aparentemente uma tarefa simples e rotineira, mas que após conversar com alguns personagens a história toma outros rumos.

Sim, é uma sinopse simples, pois a história também é simples. Numa quarta feira a noite Chana Sharaiva vai a delegacia comunicar o desaparecimento de seu filho Ofer, de 16 anos. Como algo corriqueiro, o detetive a recomenda voltar pra casa e esperar, sem dar grande importância a situação.

Em paralelo a busca do adolescente temos a inserção de um novo personagem que toma boa parte da trama, o vizinho e professor particular de Ofer, Zeev Avni, que acaba tendo uma estranha relação com o caso. Nas passagens de Zeev a crítica a literatura policial e a arte da escrita como um todo ganha corpo, com reflexões incríveis sobre o tema. Estas questões estão presentes de maneira discreta em várias partes do livro, como o fato de Zeev ser professor de inglês e o detetive ter como passatempo solucionar casos presentes em histórias de literatura policial apontando os erros nas investigações.

Imitando a realidade, a narrativa por vezes é arrastada, na tentativa de fugir do clichê o livro se torna meio chato, dando a impressão que nada irá acontecer até o final do livro. A proposta do autor é interessante porém perigosa, as pessoas normalmente procuram estes tipos de livro com uma expectativa que não será vista aqui, ver a justiça ocorrer, heróis e vilões facilmente identificáveis, alguns quebra cabeças viáveis de se resolver e pronto, bandido preso e todos felizes, um escape da realidade, mas aqui não. O livro dá certo nesta arriscada tentativa de reestruturar o clássico (e de certa forma atual quando olhamos para os romances policiais produzidos hoje) da literatura policial pela inteligência da trama em mostrar o real, o extremamente crível, as faltas de pistas nítidas, as falhas que o desanimo nos dá, os problemas familiares cotidianos que podemos encontrar em jornais baratos por todo o mundo.

Enfim, muitos podem interpretar a narrativa como cansativa e arrastada, mas se você se permitir envolver ao fim do livro verá que a proposta é bem mais complexa e interessante do que o desenrolar, propositalmente arrastado, demonstra. Com suas amarras pouco ortodoxas o final é muito pouco previsível, mas mesmo assim extremamente crível, uma combinação impressionante.

Acredito que não é um livro que agradará a todos, mas recompensará aqueles que estiverem dispostos a ler até a última página.

Boa leitura a todos.

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O livro foi enviado pela editora. 

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