Resenha – O dia em que a poesia derrotou um ditador
por Patricia
em 13/09/17

Nota:

 

Em 1970, Salvador Allende tornou-se presidente do Chile e ficou conhecido como o primeiro presidente abertamente marxista eleito na América Latina. Com a paranóia anti-comunista que se intensificou no mundo durante a Guerra Fria, seu governo tornou-se alvo de intensa oposição. Com dois dos principais países próximos com suas ditaduras militares já instaladas – Brasil desde 1964 e Argentina desde 1966 – o Chile parecia converger para o mesmo caminho. Em 1973, Pinochet assumiu o governo chileno após um golpe de estado que levou Allende ao suicídio.

A história de O dia em que a poesia derrubou um ditador começa após 15 anos dessa que foi considerada uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina. Nico Santos, filho de um professor de filosofia, vê seu pai ser levado pelos militares enquanto dava aula. Nico, um dos alunos a presenciar a cena, já havia recebido do pai instruções caso isso acontecesse. Enquanto isso, sua namorada, Patricia Bettini, enfrenta algo diferente em casa: em seu tempo, seu pai, Ádrian Bettini, ficou conhecido como um dos maiores nomes da publicidade chilena criando campanhas memoráveis para produtos duvidosos (talvez a maior marca de um grande publicitário). Bettini já havia sido raptado e torturado pelos militares e perdeu o emprego ao ser colocado na “lista negra” dos militares. Há anos não conseguia trabalho e dependia da ajuda da esposa para sustentar a casa.

Eis que após 15 anos, Pinochet decide que precisa dar um ar mais…democrático para seu governo. Ele quer provar a todos que o povo quer que ele siga como líder do Chile. Para isso, o governo orquestra uma eleição: o povo poderá decidir se Pinochet seguirá ou não no poder votando, literalmente, sim ou não. A oposição – composta por 16 partidos – poderia, até mesmo, fazer uma campanha contra o atual governo. Claro que a oposição teria apenas 15 minutos de espaço na televisão mas era melhor que nada. Para isso, eles precisavam de um grande nome publicitário. Ádrian Bettini já havia sido procurado pelos militares para liderar a campanha do “Sim” para o governo. Agora, a oposição o procurava para a campanha mais importante – e difícil – que ele criaria na vida: a campanha do “Não”.

A história do plebiscito e das campanhas é baseada na história real do Chile. O resultado do plebiscito também nos mostra que o país estava profundamente dividido entre apoiadores e opositores ao regime. Skármeta faz bom uso desse contexto para nos apresentar personagens fictícios que tiveram um papel crucial nesse período de transformações do Chile. Porém, a história perde um pouco da tensão do regime ao se sustentar mais pela luta interna de Bettini por sua carreira. Comandar a campanha do “não” seria sua redenção e, talvez, a do Chile.

É por isso que, apesar do contexto pesado e de algumas cenas mais intensas sobre morte na ditadura, o livro tem um tom mais leve do que se poderia esperar. Claro que paira uma nuvem de violência velada e medo – qualquer ato de resistência encontra uma resposta intensa dos militares – mas é um livro menos pesado do que K, do brasileiro Bernardo Kucinski, por exemplo. Em K, que retrata a busca pela irmã do autor desaparecida durante a ditadura brasileira, é paupável o tom da perda, da busca, da ânsia por se livrar daquele peso que a ditadura colocou em cada família com um membro desaparecido. Em O dia em que a poesia derrubou um ditador o desaparecimento do pai faz com que Nico tenha mais interesse na luta pelo “Não”.

É um bom livro e que retrata bem esse momento da história chilena, mas não essencial.

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