Resenha – O frágil toque dos mutilados
por Juliana Costa Cunha
em 24/10/19

Nota:

O frágil toque dos mutilados foi o livro vencedor o prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, específico para jovens escritoras/es. Quando ganhou este prêmio, Alex Sens tinha 24 anos. O autor já esteve nas páginas do Poderoso com seu livro de contos lançado pela editora Penalux. Primeiro livro dele que li e do qual também gostei muito.

Ressaltar a idade do autor ao ganhar este prêmio não é à toa. O frágil toque do mutilados é um livro com personagens extremamente complexos. Do tipo que você não espera que nenhum adolescente escreva. Ledo engano.

No livro conhecemos a história de Magnólia e sua família. Ela tem mais dois irmãos e eles não se vêem faz algum tempo. Podemos dizer que Magnólia é a personagem principal da trama. Sendo o fio narrativo e explosivo dela. Ela é Enóloga (especialista em vinhos) e casada com Herbert (especialista em Virginia Woolf). Este personagem em específico traz a paixão do autor por Virginia Woolf, trazendo vários elementos das obras dela no enredo do livro. Hebert está escrevendo um ensaio sobre o livro As ondas da autora e, além disso, ao longo da história lê vários livros dela. O nome do irmão de Magnólia é Orlando, título de um dos livros da autora. E, para citar mais um elemento, a família se encontra na casa de Orlando que fica a beira mar de um local não definido na história. O mar sempre foi importante para Virginia.

O mar nesta história não é apenas paisagem, mas uma metáfora do fluxo narrativo da história à medida que família vai passando por suas intempéries. O mar é calmo, bravio, tormentoso, azul, turvo, profundo… Muda de acordo com o vento.

Elisa é a outra irmã de Magnólia que vai passar um tempo nesta casa e rever os irmãos que não vêm a tanto tempo. Os três, Herbet e os dois filho de Orlando (Tomas e Muriel) passam 28 dias intensos nesta casa.

Magnólia é aquela personagem que para muitas pessoas que já leram o livro é amada e por outras odiada. Ela tem Transtorno de Personalidade Borderline. Um tipo de transtorno que a faz ter alterações de humor intensas e contantes, dificuldades de relacionamento e impulsividade, entre outros sintomas. E, no período que vai para a casa do irmão, Magnólia decide parar de tomar as medicações que a fazem ter o mínimo de estabilidade emocional na vida.

Eu faço parte da galera que passou o livro inteiro tento muita empatia por Magnólia. Ela decide parar de tomar os medicamentos porque quer ter emoções. Quer voltar a ter sensações e sentimentos que acabam sendo “padronizados” pelo uso dos medicamentos. Só que suas emoções são sempre em níveis altíssimos de descontrole. Para falar a verdade eu passei o livro tendo empatia por todas as personagens do livro. Orlando e Elisa também têm suas questões. Os três juntos são uma bomba relógio. As personagens periféricas do livro flutuam entre os três, em momentos divertidíssimos e momentos tristíssimos. E sim, essas personagens também possuem suas dores e delícias.

Algumas pessoas consideram o livro prolixo e monótono, mas de verdade eu não senti nada disso. A leitura fluiu muito bem e a cada dia narrado fui querendo avançar e chegar ao dia 28 e finalmente encontrar o desfecho da narrativa. E esse dia é um daqueles dias em que tudo acontece e um segredo é revelado e as dores são sentidas por cada uma das personagens à sua maneira. Apesar de achar que ficou muita coisa para o desfecho final da trama, achei que ela ficou muito bem amarrada, o que não me fez perder a empolgação com a leitura.

O frágil toque dos mutilados faz parte de uma trilogia. E o autor já lançou a segunda parte dela, também pela editora Autêntica, sob o título de A silenciosa inclinação das águas que eu já estou louca para ler. Só vou tomar umas taças de vinho e dar um respiro de Magnólia um pouco, para voltar a ela já já.

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