Resenha – O imortal
por Patricia
em 27/08/18

Nota:

Meu interesse por esse livro se deu quando vi que se tratava a) de um autor nacional e b) contava a história de um autor brasileiro que venceria o primeiro Nobel do país. Pois bem.

Cássio Haddames é um diplomata brasileiro convertido em autor. Em 2026, o Brasil é a quinta economia do mundo e concorre a 2 Nobel – um de literatura para Haddames e um de paz para o então Presidente pela mediação de um conflito intenso na América do Sul. O autor/diplomata já viveu em vários países em seus anos de serviço público, foi casado 3 vezes e tem 2 filhos dos quais não parece muito próximo.

Ao vencer o Nobel, Cássio acaba por se meter na campanha para Presidência daquele ano. Membros de um partido vêem em seu interesse pela literatura, seu trabalho público e, claro, no fato de que ele trouxe o 1º Nobel para o Brasil, fatores que podem esquentar a corrida e ajudá-los a conquistar a Presidência em uma mistura incestuosa, mas já conhecida no mundo da política, de fama e poder. Haddames é reticente em aceitar concorrer, mas acaba cedendo.

Há muitos componentes usados para contar a história: blogs que narram cenas em Paris (o blogspot ainda sobrevive em 2026, vejam só); e-mails; anotações de sessões de terapia de André – filho de Cássio; tem até um BO de um acidente em que Cassio atropelou e matou um menino, e uma ficha do SNI sobre o pai de Cássio, preso na ditadura militar. Temos ainda cartas que Cássio enviou para André quando vivia em Pequim, trechos do que parece ser um diário de Cássio, entrevistas, até uma reportagem de jornal. Além disso, há trechos de telefonemas entre políticos, trecho de um debate presidencial…tudo usado para avançar a história em momentos diferentes.

Não há muita linearidade e, por vezes, a obra fica um pouco confusa indo de 2026 para 2011, depois de passar por 2016. A intenção do autor – que também é diplomata brasileiro – parece ser usar tudo isso para nos apresentar as várias facetas de Haddames: pai confuso ao lidar com um filho homossexual; marido tenebroso e que não se dá bem com nenhuma das três ex-mulheres; diplomata meia-boca que, no geral, aproveita festas regadas a prostitutas e drogas; autor meio sem base já que suas cartas tendem a ser longas e entediantes.

Haddames é essa mistura de coisas ruins e parece que ter ganhado o Nobel não acrescentou muito de agradável. O uso de diversas fontes para contar a história quebra o ritmo de leitura e torna tudo muito cansativo. Haddames não é um personagem agradável de acompanhar. Aliás, quando ele se torna presidente ele usa o serviço secreto e os embaixadores para localizar uma amante que engravidou dele, apesar de ela deixar claro que não quer nada com ele e fugir de sua presença. Cara simpático (/ironia).

A obra também contém trechos em espanhol e inglês em uma tentativa de trazer um tom mais “globalizado” já que diplomacia é um tema. Mas só o que alcança é uma separação quase instantânea entre leitor e obra. Ou talvez o autor prefira que apenas poliglotas leiam o livro.

A obra é ambiciosa, mas temos vários pontos de vistas que levam a lugar nenhum chegando a resultados sem expressão. Nada aqui me deu a sensação de estar lendo algo remotamente interessante. Havia trechos que, na verdade, me dava desespero para pular e não ler. Há intriga política? Pouca. Debates sobre sobre como se forma um escritor ou o ato de escrever? Poucos. Trechos sobre a vida de Haddames como diplomata e seus devaneios sobre a cidade onde vive, mulheres, sonhos e etc? Até demais.

Lyrio escreve bem, isso é inegável. Mas ao tentar criar um livro cheio de formatos diferentes para contar uma mesma história, ele tirou toda a linearidade que poderia acrescentar ritmo e fluência na leitura tornando a experiência de ler O imortal algo lento e mais complicado do que deveria ser.

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O livro foi enviado pela editora.

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