Resenha – O inocente
por Patricia
em 10/07/12

Nota:

John Grisham é conhecido por seus livros sobre o mundo dos advogados. Ele, normalmente, retrata histórias fictícias baseadas em histórias reais mas sempre com um final mais feliz – talvez para que as pessoas tenham menos aversão aos advogados.

Em seu primeiro livro não-ficção, Grisham escolheu a dedo uma história tensa e complicada envolvendo um tema difícil do sistema jurídico norte-americano: a pena de morte.

Em 1976, depois dos Estados Unidos restituirem a pena de morte, Oklahoma debatia sobre qual seria a melhor forma de execução e foi o primeiro estado do país a instituir a injeção letal. Desde então, de acordo com o Death Penalty Information Center, já executou 99 pessoas e atualmente tem 66 pessoas no corredor da morte.

A história de Ron Williamson, um medíocre ex-jogador de beisebol e Denis Frit, professor de escola secundária, se tornou parte de um debate ainda mais intenso sobre a eficácia de um sistema que tem o poder de tirar a vida de alguém. Em 1988, Ron e Denis foram condenados pelo estupro e morte de Debra Sue Carter – Denis recebeu prisão perpétua e Ron, pena de morte.

A pesquisa de Grisham para este livro foi impecável. A forma como ele nos conduz durante o julgamento nos auxilia a compreender um sistema que simplesmente não funciona. As provas circunstanciais foram colocadas como incontestáveis e, sem DNA, os resultados das evidências não eram irrefutáveis apesar de terem sido apresentados como tal. Enquanto lemos, ainda que não tenhamos nenhum conhecimento legal sobre o assunto, é possível compreender que este julgamento foi, no mínimo, um absurdo.

Ron era alcoólatra e tinha problemas mentais. Por esse único motivo não poderia ser executado mas, claro, ninguém levantou esse tópico durante o julgamento. A polícia precisava terminar seu trabalho, os advogados precisavam encerrar o caso pois tinham muitos outros e, nesse meio tempo, a presunção de “inocente até que se prove o contrário” foi deixada de lado. Ron e Denis se tornaram o bode expiatório de um sistema que tinha problemas demais para tentar fazer o que era certo.

Os argumentos são tão absurdos que chega a ser assustador como o jurí se deixou convencer. Em dado momento, o Estado chama uma pessoa que ouviu Ron chamar por Debbie durante seu sono. A história foi colocada como prova concreta da culpa de Ron. Nesse momento, confesso que fiquei revoltada.

Entendo os argumentos de quem é a favor da pena de morte, já os ouvi 300 vezes. Mas deixar para um sistema tão corrupto a decisão sobre a vida de uma pessoa, é simplesmente desumano – por mais desumana que a pessoa seja. A história de Ron e Denis é um argumento forte contra a pena de morte e me impressionou tanto que até hoje me interesso pelo assunto e tento ler e pesquisar sempre casos novos.

Grisham consegue ser quase imparcial na forma como nos conta a história deixando que o leitor entenda por si onde está a injustiça de verdade e como é fácil culparmos aqueles que seguem um estilo de vida que não vemos como “ideal”.

Os dez anos seguintes foram de apelações e mais injustiças contra Ron e Denis. Ron deteriorou terrivelmente durante seus dez anos no corredor da morte e chegou a 5 dias de ser executado. Ficava em sua pequena cela, muitas vezes sem ver o sol por dias e às vezes dava sinais claros de que sua saúde mental já estava nas últimas. Nada disso, no entanto, fez com que o Estado revogasse sua condenação.

Denis, por sua vez, ficou dez anos sem ver a filha, se torturando e tentando entender o que realmente tinha acontecido. É algo que não é fácil de imaginar. Que um jurí permita algo desse tipo – sem provas concretas – é monstruoso.

A salvação veio por meio do The Innocence Project. Este é um projeto desenvolvido por advogados para exonerar presos através de exames de DNA – acredita-se que, atualmente, 5% dos presos nos Estados Unidos sejam inocentes – algo em torno de 100.000 pessoas. Desde o início do projeto, em 1989, mais de 250 pessoas inocentes foram libertadas. Algumas chegaram a cumprir 25 anos de prisão.

Foi o The Innocence Project que trabalhou no caso de Ron e Denis não apenas para provar que eram inocentes mas, também, para apresentar o culpado. Eles saíram da prisão com um breve pedido de “desculpas” e 50 dólares. Claro que ambos processaram o Estado e ganharam uma fortuna mas nada disso muda o tempo de vida que perderam e a sensação de injustiça que perdura.

Para aprofundar o assunto sobre pena de morte, recomendo um documentário – que foi feito em 3 partes – durante os 18 anos que o caso rolou. O caso ganhou notoriedade porque foi a primeira vez que o Metallica liberou os direitos de suas músicas para um filme deste tipo. Mas o mais importante é mesmo a calamidade do sistema jurídico norte-americano que permite que 12 pessoas sem conhecimento legal seja persuadida de maneira tão cruel a decretar a morte de uma pessoa, tornando-se cúmplices do Estado no assassinato de um inocente.

Parte 1: Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills Trailer

Parte 2: Paradise Lost: Revelations (não achei o trailer)

http://www.hbo.com/documentaries/paradise-lost-2-revelations/synopsis.html

Parte 3: Paradise Lost: Purgatory

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – O inocente”


 

Comentar