Resenha – O jogador
por Patricia
em 04/03/13

Nota:

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Acho que todo mundo que gosta de Literatura já ouviu falar de Dostoiévski – seja para o bem ou para o mal. Há alguns anos (vamos chutar uns dez) tentei ler Crime e Castigo e a leitura não fluiu. O livro me pareceu muito denso e não consegui lidar muito bem com isso na época. Mas não desisti de Dostoiévski. Continuei comprando seus livros e esperando o momento certo para tentar outra vez.

Essa chance veio no começo desse ano quando encontrei minha cópia do O jogador. Um livro de apenas 210 páginas e com uma temática que me pareceu divertida. Resolvi que agora era hora de encarar o autor novamente.

O livro conta a estória de Alexei Ivanovitch – jovem de 25 anos que trabalha como preceptor dos filhos do General Zargoryansky. Apaixonado por Paulina (enteada do General) ele vive uma vida sem muito sentido e quase sem nenhuma outra paixão. Ele teima em contrariar a elite que o cerca só pelo gosto de fazê-lo – como se contrariá-los significasse excluir-se deles, o que nem sempre é verdade. Por não ser um homem rico, muitas vezes ele sofre certo preconceito e seu sonho é conseguir ter dinheiro o suficiente para fazê-los cair a seus pés (e quem não quer isso?).

O livro começa de fato a entrar no mérito do jogo – e sim, “O jogador” é um título literal sobre Alexei e seu vício em cassinos. Mas há ainda uma sub-interpretação (acho que inventei uma palavra) para esse clássico: a vida de Alexei, parada e insonsa, ganha cor quando ele está jogando. Seus ânimos aparecem e finalmente vemos algo que o faz transbordar de paixão além de Paulina. Mas é assim que vícios funcionam em sua maioria – quando você está usufruindo deles, a vida parece fazer sentido, seus objetivos parecem que estão próximos e quando tudo acaba você está no fundo do poço e precisa recomeçar.

Tudo isso poderia ser muito chato e entediante se não fosse a dívida que o general – chefe de Alexei – tem com um francês e que o deixa desesperado para que sua vó morra logo para que ele possa receber sua substancial herança. A história passa, então, a ter um certo teor cômico e isso é elevado quando a velha aparece para visitá-los não só em boa saúde mas deixando claro que não vai dar dinheiro nehum para ele.

Nesse momento, o lado jogador de Alexei toma conta e ele acompanha vovó pelo cassino para que ela possa conhecer o ambiente. Rapidamente ela se empolga um pouco além do necessário e perde muito dinheiro – para desespero do general e do francês que agora está certo de que nunca mais verá seu dinheiro. Essas passagens são realmente engraçadas.

Alexei, no entanto, ainda não se aventurou loucamente no jogo – até aqui ele está consciente de suas limitações. Ele jogou um pouco com o dinheiro de Paulina – que está desesperada para aumentar seu dote para poder se casar – mas não correu muitos riscos e ficava nervoso com a possibilidade de perder.

Quando finalmente Alexei se lança à roleta ele prova que um jogador de verdade tem que entrar com a alma no jogo e estar disposto a ganhar muito ou a perder tudo – tem que estar disposto a apostar alto. E Alexei leva isso ao pé da letra indo de momentos de extrema bonança a ser preso por causa de suas dívidas de jogo.

O livro é bem escrito ainda que seja um pouco confuso pelas expressões em francês no meio dos diálogos mas, vale a pena. Cada capítulo contém bastante informação provando que o autor é um bom contador de estória e sabe levar o leitor a se jogar (trocadilho amador, eu sei) no enredo.

Dostoiévski era um jogador e esse livro foi escrito para que ele pudesse receber algum dinheiro porque estava endividado, ou seja, um livro por encomenda. Várias pessoas já disseram que ele não está no mesmo patamar que outras obras do autor como Crime e Castigo e O idiota. Quanto a isso não posso atestar. Porém, aqui vai uma dica: para quem quer ler Dostoiévski e se assustou com a intensidade de Crime e Castigo, recomendo, sim, começar com O Jogador que é um livro mais leve. Pelo menos já é possível ir se acostumando com a linguagem rebuscada do autor e seu estilo de escrita que é definitivamente excelente.

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6 Comentários em “Resenha – O jogador”


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Luan Kozlowski Nogueira em 13.01.2016 às 09:05 Responder

Li a sua resenha falando a respeito de Crime e Castigo e recomendo de olhos fechados a leitura do mesmo, o livro é intenso e a história só melhora ao longo do livro. A leitura é um pouco difícil sim por se tratar de um livro clássico com vocabulário robusto e o nome dos personagens serem russo e com diversos apelidos entre eles, mas mesmo assim vale a pena, Dostoiévski tem o poder de te colocar na cabeça do um assassino e ficar ao seu lado torcendo para que tenha um desfecho feliz.

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jessilelio soares guimarães em 23.08.2016 às 14:09 Responder

Eu li o jogador, prá mim é a melhor obra de Dostoievisck, pois o personagem Alexei é muito rico, é um ser humano icrível, pois é verdadeiro e livre, n está preso a convenções, ele é puro

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Patricia em 23.08.2016 às 14:42 Responder

Faz muito sentido, na verdade. 🙂 Esse é um livro que acho que vale mais de uma leitura porque cada vez que penso em uma obra de Dostoiévski, acho que as interpretações podem ser feitas em vários níveis.

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Larissa em 17.07.2017 às 13:13 Responder

Acabo de ler, fascinante. Comecei a ler Dostoiévski por “Humilhados e Ofendidos”, depois li o pequenino “Noites Brancas”, agora “O Jogador” me surpreendeu, é meu preferido até agora li em pouquíssimo tempo, realmente me joguei no enredo. O próximo da lista é “Crime e Castigo, sem dúvida. Ótima resenha, parabéns!

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Patricia em 17.07.2017 às 13:25 Responder

Adorei Noites Brancas! Arrase no Crime e Castigo. Confesso que ainda não criei a coragem, mas um dia chego lá. 😉

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jessilelio soares guimarães em 16.08.2018 às 14:58 Responder

o jogador é melhor obra pra mim


 

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