Resenha – O jogo da amarelinha
por Juliana Costa Cunha
em 06/01/20

Nota:

Cortázar, aos 23 anos, fugindo da ditadura na Argentina, foi morar em Paris e lá permaneceu até a sua morte. Horácio Oliveira, argentino e personagem principal do O jogo da amarelinha também foi morar em Paris. Por isso, e por outras passagens inseridas na narrativa, este é um livro com fortes traços autobiográficos, segundo a grande crítica.

O jogo da amarelinha é o livro que causou rebuliço na literatura do século 20 e trouxe à tona a escrita latino-americana da época. O autor faz deste romance um anti-romance. Faz uso da escrita como exercício da liberdade. Temos aqui o uso da linguagem em seus extremos. Usando o caminho da razão em busca do delírio. E, de acordo com Oliveira, a literatura é um exercício de destruição de si mesma.

Pensar essa escrita no século 20 realmente me remete ao grande estranhamento, encantamento e assombro com a grandeza dela. Cortázar nos propõe uma leitura salteada do livro que escreveu. Faz com que quem o lê se sinta participando da construção do romance. Como um Jazz, lança mão de improvisos com maestria e rigor. Mas, não se iluda, nada é solto. Se você se propuser a fazer a leitura sugerida pelo autor, não pense que está no comando. Tudo é primorosamente pensado. O Jazz tem seu momento de improviso. Mas quem improvisa é um mestre. Lembre-se sempre disso.

O livro tem os capítulos do 1 ao 56 narrado por Horácio Oliveira e seu romance com a Maga. Após o capítulo 56 temos o que o autor intitulou de capítulos prescindíveis. Logo nas primeira páginas nos deparamos com uma espécie de tabuleiro de jogo e a indicação de leitura sugerida. Eu, optei por esta leitura. Então, li primeiro o capítulo 73 para então, depois, ler o capítulo 1 e me deparar com a frase clássica dita por Oliveira: “Encontraria eu a Maga?” Com esta frase nos iniciamos no romance de Oliveira e da Maga, um casal improvável que se encontra nas ruas de Paris sem que marquem encontros específicos. Escolhem um bairro e marcam nele. Ficam perambulando pelo bairro até que se encontram. E sempre se encontram, pois têm amores afins.

É um livro que vai nos falar de amor, amizade (há um clube de amigos que se reúnem para falar de arte, literatura e música), solidão e medo. Sobre a vida e suas intempéries. Porém Cortázar não se limita a contar este romance, mas o modo de conceber esta história. Um jogo constante entre romance e teoria. Os capítulos prescindíveis são pura teoria que se comunicam com os capítulos romanceados. As teorias tentam responder aquilo que o romance não consegue resolver. “De que serve o escritor se não for para destruir a literatura” , nos pergunta Oliveira.

No O jogo da amarelinha o narrador é comentador de si mesmo. Os personagens centrais são perseguidores de utopias e se rebelam com o mundo dado e o escritor é visto como um poeta. A Argentina é inserida no livro como personagem de circo e inserida num grande hospício.

Não é uma leitura fácil. É por vezes cansativa e pedante. Horácio Oliveira é um entojo de personagem. Mas é um livro escrito para ser uma ode à literatura. Uma declaração de amor à escrita. E um chamado para que ela não caia em regras prontas. Para que ela esteja em constante transformação. Sempre buscando o algo mais. Sempre improvisando, mas com total domínio da técnica.

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Livro enviado pela editora

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