Resenha – O lar da Senhorita Peregrine para crianças peculiares
por Bruno Lisboa
em 07/02/17

Nota:

 

Antes de mais nada preciso confessar: fenômenos literários pouco chamam a minha atenção. A razão é simples e egoísta: afinal se “todo mundo está lendo” porquê eu deveria fazer o mesmo? E mais: será que o fato da obra estar constantemente em evidência é por mérito ou é mais uma traquinagem editoral? Por estas razões, raras são as vezes que me atento à títulos desta seara. Sei que por vezes posso estar perdendo algo valoroso, mas esta sina que me acompanhava há tempos se perdeu já que decidi prestar a devida atenção na série Lar da srta. Peregrine para crianças peculiares. E o resultado foi surpreendente.

Escrito pelo norte-americano Ransom Riggs, Lar da srta. Peregrine para crianças peculiares é o primeiro volume de uma trilogia sobre crianças peculiares (leia-se dotadas de características especiais) que foram abonadas pelos pais e vivem no Orfanato da Srta. Peregrine, localizado no País de Gales.

Como protagonista temos Jacob, um garoto recluso que vive nos EUA uma vida pacata ao lados dos pais, dos poucos amigos e do avô (Abe Portman). Desde quando o neto era pequeno, contava histórias surreais e de fatos do mesmo quilate sobre a sua própria infância.

A vida do personagem central muda de figura a partir do momento em que Abe morre de forma misteriosa e traumática que acaba por resultar numa viagem em busca das origens obscuras do patriarca que viveu parte da infância e adolescência numa remota ilha européia. Chegando lá Jacob inicia solitariamente uma investigação acerca do passado do avô que acaba por levá-lo a descoberta de uma fenda temporal (onde se vive um estado de loop infinito do mesmo dia) habitada por crianças estranhas que estão em perigo.

Tal como um Neil Gaiman da nova geração, Riggs constrói, a partir de fotografias antigas e reais (que, aliás, embelezam ainda mais esta edição em capadura da Intrínseca) um enredo fantasioso dominado por personagens que vivenciam o embate entre encarar o mundo da real ou uma realidade paralela. Outro ponto a ser observado é que assim como Gaiman, Ransom é adepto das caracterizações pontuais de tempo, espaço, ambientação e apresentação dos personagens.

Suas crianças peculiares, por vez, fascinam devido ao modo como são trabalhadas, pois Ransom não se atém somente ao aspecto físico mas também psicológico. Apesar da certa morbidez que algumas personagens trazem em si é visível e interessante observar que o autor dedica boa parte da obra à compressão da essência sôfrega que cada uma delas enfrenta devido ao abandono de seus progenitores. Como contraponto elas veem na figura da srta. Peregrine uma matriarca que carinhosamente cuida e protege seus pupilos. Com Jacob não é diferente, pois o apego e carinho dedicado ao avô é resultado do detrimento da falta de atenção dos pais e amigos.

Por mais que a adaptação para o cinema do livro, dirigida por Tim Burton, falha vergonhosamente por transformar a riquíssima narrativa criada por Riggs num X-men para crianças, Lar da srta. Peregrine para crianças peculiares é um dos raros exemplos em que a literária mainstream respira bem, mesmo que com a ajuda de aparelhos.

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Livro enviado pela editora

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