Resenha – O livro amarelo do terminal
por Patricia
em 15/02/16

Nota:

2

Cresci passando na frente do Terminal Rodoviário Tietê, sabendo muito pouco sobre o Terminal em si. Para mim, ele sempre funcionou mais como ponto de referência (“É depois do Tietê”) do que como lugar de visitação ou mesmo de interesse. O Terminal estava ali e, para mim, era isso. Sabemos que muitas pessoas chegam ali todos os dias, sabemos que passar em frente ao Terminal em determinados horários é um pesadelo, sabemos que ele é enorme e sabemos que se entrarmos na rua errada, teremos que atravessar por dentro do Terminal.

O que a jornalista Vanessa Barbara nos propõe com sua obra, O livro amarelo do terminal, é um passeio por dentro das paredes de concreto desse que é um dos maiores terminais rodoviários do país. A autora nos apresenta as diversas figuras que são parte do dia a dia do Terminal: a moça que fica na baia de Informação e tem que lidar com o bate papo furado de passageiros ou com gringos que não falam português enquanto ela não fala nenhuma língua estrangeira; o segurança que fica 12 horas em pé e a pessoa por trás da voz que anuncia encontros e passa mensagens importantes. De todos os personagem que a escritora nos apresenta, os mais interessantes são, sem dúvida, os passageiros. Ela conversou com pessoas que vieram “ganhar a vida” em São Paulo há muitos anos e só agora – 10, 15, 20 anos depois – conseguiram juntar dinheiro para visitar a família em sua cidade de origem. Embarcam em viagens que chegam a durar mais de 25 horas, dependendo do destino.

Eles chegam de muitos lugares, mas principalmente do Nordeste. E, se avaliarmos a história do país nos últimos 20 anos, os motivos para a migração são compreensíveis. Visto por esse prisma, o Terminal Tietê é um pequeno espectro que resume o que é São Paulo: uma cidade em que se encontra gente de todo lugar com intenções de todo tipo.

E, mais, o Terminal também teve em sua construção todos os componentes sujos da política brasileira: pouca transparências, decisões duvidosas, Maluf, Tuma e afins. Ou seja, analisar a construção e o significado do Terminal Tietê funciona quase como uma metáfora do que é o Brasil.

Vale notar que essa é mais uma edição espetacular da finada Cosac Naify, O livro amarelo do terminal ficou marcado como o primeiro livro reportagem lançado pela editora e levou o Prêmio Jabuti nessa categoria em 2009. Seguindo o tema, as páginas são amarelas e não seguem nenhum tipo de diagramação linear, o design quase que se alterna junto com a história. Quando a jornalista usa artigos de jornais para falar da história da construção do Tietê as páginas são brancas, quase transparentes (uma justaposição à falta de transparência que está escancarada ali) e o texto é composto de xerox desses artigos. Essa obra foi uma experiência fantástica para uma paulista. Mais ainda para alguém que viveu a vida toda na zona Norte da cidade de São Paulo.

A leitura, para quem olhar apenas a sinopse pode parecer muito mais complicada do que realmente é. Afinal, por que alguém leria um livro sobre um terminal rodoviário? E pior, nem tem triângulo amoroso ou vampiros brilhantes. A grande sacada de Vanessa Barbara foi criar um livro que não segue um padrão específico: em um capítulo temos uma conversa dela narrada em primeira pessoa; no seguinte é a história de outra pessoa narrada em 3a; depois temos cópias de artigos de jornais; no próximo a autora imagina parte da história de um personagem que ainda não conhece bem; há ainda capítulos que mais parecem narrações de documentários. O leitor, sem saber o que esperar, acaba se envolvendo cada vez mais na leitura.

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