Resenha – O livro de Moriarty
por Thiago
em 31/05/17

Nota:

Falar de Sherlock Holmes não é algo tão simples assim e digo isso por alguns motivos: primeiro pelo autor, segundo pela influência e importância que este personagem tem para a literatura e cultura pop ocidental, terceiro pelos leitores; estes se dividem em dois grupos.

Em vários assuntos os fãs complicam tudo, aqui não é diferente. Temos os doylianos e os sherlockianos, a grande diferença entre eles está na forma como preenchem as lacunas significativas presentes nos textos. Ironicamente as histórias do detetive conhecido pelo uso do raciocínio lógico é cheia de furos lógicos e erros de continuidade.

Este livro contém 5 contos e um romance onde o professor Moriarty aparece. Para entender o vilão é importante saber que ele é como uma sombra, pois as histórias do detetive são contadas por seu amigo Watson, e este não o encontrou cara a cara, apenas o viu de relance uma única vez.

Doyle, o excêntrico autor, um dia se cansou do personagem que lhe deu fama e fortuna e resolveu que deveria matá-l0, mas como matar alguém como Holmes? Daí surge Moriarty, um vilão que pelas sombras joga seus tentáculos em Londres. Um vilão que trouxe uma proposta diferente para os romances policiais, se tornando um antagonista a altura de Holmes.

Vamos a uma análise rápida, Doyle escreveu 4 romances e 56 contos que formam, o que os estudiosos deste autor chamam de “cânone”, que reúne tudo que o autor escreveu sobre Holmes. A aparição do algoz em relação a todo o “cânone” é curta, mas tem uma explicação.

 

 

No primeiro conto do livro, “O problema final”, quando Holmes fala de Moriarty para Watson diz que “o homem é onipresente em Londres, mas ninguém ouviu falar dele”, em sequência nos diz também que “é responsável por metade das ações malignas e quase todos os delitos ocultos nesta grande cidade.” Sherlock tem então em um ex professor de matemática – sim, o grande vilão da literatura era professor de matemática – o complemento que fez as histórias se tornarem mais completas e profundas.

Neste primeiro conto e aparição do personagem no universo de Holmes, tudo é feito com um único propósito, matar o detetive. Em uma carta destinada a mãe o autor escreveu:  “Estou cansado de ouvir o nome de Sherlock Holmes. Ele pertence a um estrato inferior de criação literária. Como prova de minha resolução, estou decidido a matá-lo”. Sherlock Holmes tomava todo seu tempo e não o permitia se envolver em outros projetos que tinha interesse. Assim, em 1893, Doyle publica pela Strand Magazine, uma revista mensal britânica de significativa popularidade, por custar a metade do valor das concorrentes, e por publicar, além de temas relevantes à época, contos de ficção de autores hoje mundialmente conhecidos. Conan Doyle era de extrema importância para a revista, e é nela e neste conto que o autor mata o detetive e seu vilão.

Agora Doyle livre do personagem que o aprisionava pode se dedicar a outros projetos, mas as coisas não foram tão simples assim. Sherlock não apenas “aprisionou” seu criador, mas o deu fama e uma boa condição financeira e sem o detetive, manter seu padrão de vida não era algo tão simples. Então, em 1902, o autor publicou “O cão de Baskerville”, na mesma The Strand, mas a história se passava em um período anterior a morte de Holmes, sendo assim o detetive continuava morto. No ano seguinte uma revista americana lhe ofereceu uma bolada para reviver o personagem em 13 novas histórias. Os contos de “O retorno de Sherlock Holmes” foram publicados em formato de livro em 1904, começando com uma história incrível, “A aventura da casa vazia” (segunda história presente em “O livro de Moriarty”), onde nosso “herói” conta ao seu parceiro Watson o que ocorreu no episódio de sua teórica morte e sobre suas andanças anônimas pelo mundo, e que agora estava de volta a Londres e disposto a trabalhar.

Há apenas uma questão que ainda era complicada, o arqui inimigo e personagem de destaque do livro resenhado, continuou cronologicamente morto após “O problema final”. Assim, a sombra que o vilão criou perpassou outras histórias, onde menções ao Napoleão do crime aparecem, além de rastros de seus feitos e um saudosismo de Holmes pelo seu maior desafio.

A coletânea ainda contém um livro inteiro, “O vale do medo”, lançado primeiramente em formato de folhetim entre 1914 e 1915, novamente na Strand Magazine, e em 1915 é publicado em formato de livro. Este é o último romance do cânone escrito por Doyle, nesta história Watson relembra o passado e narra períodos onde Moriarty ainda estava vivo.

Nesta coletânea feita pela Penquim podemos compreender melhor o universo de Sherlock Holmes, pois os maiores desafios do detetive estão juntos. Sempre tive um maior interesse por vilões do que heróis; um bom vilão, crível e que faça coisas de maneiras inteligentes e sem parecer simplesmente maligno são raros. Vejo Moriarty como o melhor vilão da literatura moderna, pois ele não precisou aparecer tanto e mesmo assim foi grandioso, sua sombra reverberou mesmo com sua morte.

Elementar que este é um bom livro, boa leitura a todos.

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O livro foi enviado pela editora

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