Resenha – O melhor que podíamos fazer
por Juliana Costa Cunha
em 27/01/20

Nota:

Thi Bui, autora desta HQ de memórias gráficas incrível, é vietnamita tendo imigrado junto com sua família no final dos anos 70 para os EUA, ainda criança. Quando lançou estas memórias era professora de escola pública na Califórnia onde mora com seu marido, seu filho e sua mãe.

Em O melhor que podíamos fazer a autora nos conta sua história pessoal e familiar, inseridas em acontecimentos locais (Vietnã) e atingidas por diversos acontecimentos globais. Entre eles: a “colonização” francesa no Vietnã, a Guerra da Indochina e a Guerra do Vietnã. Todos estes acontecimentos são fundamentais na compreensão das vivências e dificuldades enfrentadas, pela mãe e pelo pai de Thi Bui, desde a infância deles até o momento em que, com três filhos nascidos e a autora sendo gestada, imigram para os EUA.

Eu li este livro emocionada. Ele é muito atual, se pensarmos em todo contexto migratório que o mundo vivencia. Além disso, o resgate que a autora faz da história de sua mãe e de seu pai é de uma delicadeza imensa. É uma história que, mesmo sem vivenciar nada do que esta família passou na vida, é impossível não sentir empatia por ela (talvez porque em algum ponto você vá se encontrar com a sua própria família).

Thi Bui iniciou a escrita e arte destas memórias gráficas em 2000 e só conseguiu finalizá-la em 2016, quando foi lançada. Imagino que não apenas pela dificuldade em colocar no papel a história oral narrada a ela. Mas também porque ao resgatar essa história, a autora fez um resgate de si mesma. Resgatou seu lugar de pertencimento no mundo e em sua família. E compreendeu muita coisa.

Os desenhos são ricos em detalhe e todo ele com predominância dos tons terrosos, remetendo a esta busca pelo lugar de origem. Ao longo de suas conversas com seu pai, Thi Bui ficou sabendo de sua infância em família violenta e os diversos perrengues que passou ainda criança e na juventude. O pai de Thi Bui é um homem solitário e bastante duro consigo mesmo e com seus filhos.

Faço um destaque para a narrativa feita pela mãe da autora sobre sua história. Sobre seu desejo de ser médica e não ter realizado. Sobre seu deslumbramento na escola francesa que frequentava e sua convicção em não casar para seguir sua carreira. Sobre como conheceu seu marido e pai da autora e casou-se com ele considerando que, por ele ter tido tuberculose, morreria logo e desta forma ela cumpriria sua função social de mulher casada, se tornaria viúva e, assim, poderia realizar seus desejos sem pressão social. Não é preciso dizer que esse encontro da autora com essa narrativa de sua mãe, mexeu com ambas, as afastou e as reaproximou ao longo do tempo né?

Ao final da leitura fica a certeza que O melhor que podíamos fazer não poderia ter outro título. É o ponto de encontro de Thi Bui com sua história, a compreensão e a aceitação dela.

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Livro enviado pela editora

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2 Comentários em “Resenha – O melhor que podíamos fazer”


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Gabriel Marcelino em 29.01.2020 às 08:07 Responder

Gosto muito do resumo de vc(s) e gostaria que vc(s) falassem sobre o livro “Battle Royale” do Koushun Takami.

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Juliana Costa Cunha em 10.02.2020 às 08:53 Responder

Oi Gabriel. Obrigada por acompanhar e curtir.
Vamos dar uma olhada nesta tua indicação.
abraços


 

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