Resenha – O Método
por Thiago
em 18/10/14

metodo coleção

 

Olá, resolvi falar mais um pouco sobre Edgar Morin, hoje quero apresentar pra vocês um breve olhar sobre sua obra mais famosa, “O Método”, um conjunto de seis livros onde boa parte de suas teorias que baseiam seu pensamento são desenvolvidas, como o pensamento complexo.

Sei que o que se segue aqui é breve e superficial, afinal é, como disse um breve olhar sobre o conjunto dos seis livros.

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A editora Sulina, responsável pelos seis livros, lançou a pouco tempo uma caixa com todos, então vamos saber um pouco mais sobre eles.

Em A natureza da natureza, primeiro livro da sequência de O método, Morin propõe um novo olhar entre ordem e desordem que marca a passagem das leis da natureza à natureza das leis, tendo assim a physis como seu núcleo. A physis aqui se confunde com o conceito de natureza de Espinosa, que a considera como a própria fonte da criação e da organização. Espinosa, como nos mostra Étiene Gilson, “Não tinha a religião de um cristão nem a de um judeu; não tendo qualquer religião, não se podia esperar que tivesse a filosofia de qualquer religião; mas era um filósofo puro, o que explica o fato de ter tido a religião de sua filosofia” (GILSON, 2002, p.75).

Para Espinosa, a existência de toda e qualquer coisa expressa apenas o poder de existir que pertence à sua natureza. Assim, “a existência de substância resulta apenas da sua natureza, porque isso implica existência” (ESPINOSA apud GILSON, 2002, p.75). A natureza pode assim ser entendida como a própria existência, tal qual a physis em Morin, onde a natureza traz a própria noção de existência. Gilson nos diz ainda sobre a ideia de natureza em Espinosa que, “tal como o círculo quadrado não pode existir porque a sua essência é contraditória, Deus não pode não existir…” (ESPINOSA apud GILSON, 2002, p.75), pois Deus ou o ser absolutamente infinito existe absolutamente, entretanto, um Deus que “existe e age meramente a partir da necessidade de sua natureza” (ESPINOSA apud GILSON, 2002, p.75) pode ser entendido como a própria natureza.

No primeiro livro do método não encontraremos a proposta de um compêndio científico. Morin nos traz o exercício de religar tais ciências, entretanto sem eliminar as áreas do conhecimento científico e sim elaborar um conhecimento que se beneficie das divisões realizadas no século XX, tais iniciadas no século XVII, inspiradas nas propostas de ordem (pelo determinismo), redução e disjunção. Entretanto, essas bases de pensamento filosófico-científico conseguiam sustentar uma antiga visão de mundo, o início de um ethos da razão, tomando aos poucos o lugar de seu antecessor, o ethos medieval (MORIN, 2008).

O autor parte então de uma construção anterior para uma nova visão dialética da elaboração de conhecimento, daí o primeiro livro do método trabalhar com a proposta de religar os processos de ordem, desordem e organização, fazendo dessas palavras-chave a base de um tetragrama, juntamente com a noção de interação, sendo esta a palavra-chave que fecha e faz a circulação e funcionamento do tetragrama. Logo, podemos perceber que o problema da organização seria o alicerce do livro A natureza da natureza. A própria noção de organização é complexa. O método se mostra, pois, como outra forma de pensar, trazendo a complexidade do pensamento para construir uma forma de encarar antigos conceitos como, neste caso, a physis (MORIN, 2008).

Já no segundo livro, A vida da vida, trata das questões ecológicas, do oikos. Um livro que examina as condições da eco-organização e da autoecoorganização. Essa ecoorganização entrelaça diversidades, regulações, emergências e dissipações (MORIN, 2005).

Morin indaga o sentido de um indivíduo viver, o sentido do existir. Define o sujeito através de dois princípios: o egocêntrico do “eu apenas eu” e o do “nós”, da sociedade, da casa, núcleo familiar ou até da espécie. Assim Morin nos traz o sujeito com três identidades: uma genérica, uma pessoal e uma de pertencimento a um grupo, a uma sociedade. O sujeito assume, nesse segundo volume, um destaque especial. Não se trata aqui de um sujeito que se submete às forças indômitas da natureza, mas um sujeito autônomo, um sujeito de identidade complexa (MORIN, 2005).

O terceiro livro, O conhecimento do conhecimento, como o título nos sugere, contém uma antropologia do conhecimento, um retorno às origens biológicas do conhecimento. O conhecimento é o objeto mais incerto da filosofia e o menos conhecido da ciência. Nesse livro, Morin nos mostra tal afirmativa e busca religar (novamente trago esta palavra, pois é através dela que compreenderemos o método moriniano) as ciências cognitivas, tanto as psicológicas quanto as neurociências (MORIN, 2008).

O quarto livro, As ideias, dá continuidade ao seu antecessor e incursiona pelo mundo das noosferas e noologias, esses circuitos de ideias que organizam o sentido do mundo. Morin nos diz que as grandes ideias vivem como deuses (MORIN, 2010).

Como os deuses elas são produtos de mentes humanas, mas, como os deuses, adquirem poder e realidade. Como os deuses, elas podem fazer de nós vítimas ou carrascos. Como os deuses, as ideias são, então, dotadas de uma extraordinária existência, mas essa existência depende dos seres humanos que as produzem. Todos os deuses e todas as ideias morrerão quando a humanidade morrer. A conclusão que tiro disso é que não podemos escapar nem dos mitos nem das ideias e, tampouco, devemos nos deixar subjugar pelas ideias, mas travar um diálogo consciente com elas. Devemos possuir as ideias que nos possuem, e não apenas ser possuídos por elas (MORIN, 2010, p.233).

Morin nos traz dois paradigmas básicos: o da disjunção, que separa o homem e a natureza, e o da conjunção, que prega a dualidade natural e cultural. O pensamento complexo prega uma revolução paradigmática que questiona essas dualidades, redirecionando, assim, o sentido do aprender e do educar. A questão cognitiva, segundo o autor, é o nosso problema cotidiano. Sua importância está nas condições necessárias para aprendermos a viver na crise planetária (MORIN, 2010).

No quinto livro, A humanidade da humanidade: a identidade humana, ele realiza uma análise acerca da identidade e dos sentidos múltiplos da humanidade. Morin nos traz quatro importantes concepções. A primeira, em relação à trindade humana, a identidade complexa caminha nesta direção, que se situa em uma relação entre espécie, indivíduo e sociedade. Assim:

A espécie produz os indivíduos, mas os indivíduos são necessários para produzir a espécie: assim, os indivíduos são produzidos e produtores. A sociedade é produzida pelas interações entre indivíduos, mas a sociedade, com sua cultura e sua língua, produz o caráter propriamente humano dos indivíduos. Dessa forma, espécie, indivíduo e sociedade se entreproduzem (MORIN, 2010, p.205).

A segunda contribuição se encontra na noção de sujeito:

Comporta a autoafirmação de um “eu apenas eu” no centro de seu mundo, origem de um egocentrismo que pode degenerar em egoísmo, mas comporta, ao mesmo tempo, a aptidão de se integrar em um “nós”, origem da capacidade de se dedicar ao bem comum ou ao próximo (MORIN, 2010, p.205).

A terceira proposta trabalha a concepção de Homo sapiens, Homo faber e Homo economicus, na qual o Homo sapiens é também o Homo demens, afinal, o homem é dotado de razão mas também é capaz do delírio. O Homo faber é também Homo mythologicus, pois é capaz de construir suas ferrramentas e também capaz de crer, de desenvolver a religião. E, por fim, o Homo economicus não é apenas economicus, ele é também ludens. Desse modo, ele nos traz a identidade complexa do ser humano, que não pode mais ser visto apenas como sapiens, e sim através de uma concepção aberta de humanidade, uma antropologia através do olhar do pensamento complexo. Morin então foge da concepção de ser humano como animal racional, mostrando-nos que somos um animal que, dentre outras coisas, é também racional (MORIN, 2010).

A quarta proposta nos traz uma busca renovada e complexa da ideia do período do renascimento, no qual o ser humano era visto como um microcosmo no centro do macrocosmo: o Universo (MORIN, 2010).

No último livro do método, Ética, percebemos um retorno às ideias da complexidade que aparecem nos volumes anteriores, para uma revitalização da ética dentro do pensamento complexo. Tal ética é, sobretudo, complexa, pois traz em si incertezas e contradições. Assim, “qualquer ação ética comporta um desafio e supõe o entendimento das condições nas quais ela se produz” (MORIN, 2007).

As contradições éticas podem surgir quando dois imperativos contrários se impõem numa mesma consciência. A ética tribal dos beduínos comporta, assim, dois imperativos: um é o da hospitalidade, o outro, o da vingança pela morte de um dos seus. Dei o exemplo, fornecido por Louis Massignon, da mulher beduína cujo marido foi assassinado no decorrer de uma vendeta tribal. No crepúsculo, o assassino de seu marido chega à sua tenda e lhe pede abrigo. Ela tem dois deveres imperiosos, o da hospitalidade e o da vingança. Ela encontra um meio de resolver essa contradição concedendo ao assassino a hospitalidade durante a noite e, no dia seguinte, com seus cunhados, parte para matá-lo (MORIN, 2010, p.238).

Neste último volume do método, Morin nos fala do que denomina de “fé ética”:

A fé ética é amor. Mas é um dever ético salvaguardar a racionalidade no coração do amor. A relação amor/racionalidade deve ser como o yin/yang, um sempre ligado ao outro e sempre contendo em si o outro em estado original. Esse amor nos ensina a resistir à crueldade do mundo, ele nos ensina a aceitar/recusar este mundo. Amor é também coragem. Ele nos permite viver na incerteza e na inquietude. Ele é o remédio para a angústia e a resposta para a morte, ele é a consolação. É o Doutor Love que pode salvar Mister Hyde. Paracelso afirmava: “Toda medicina é amor”. Digamos também e sobretudo: “Todo amor é medicina”. O amor médico nos diz: ame para viver, viva para amar. Ame o frágil e o efêmero, pois o mais precioso, o melhor, aí compreendidas a consciência, a beleza, a alma são frágeis e efêmeras (MORIN, 2010, p.240).

Se algum objetivo deve ser buscado nos seis volumes de O método, ele se localiza na profunda insatisfação com o paradigma do ocidente, que dualiza e separa, degenera o saber em concepções fragmentadas.

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