Resenha – O olho
por Patricia
em 09/07/13

Nota:

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É difícil para mim ver um livro no Nabokov e não querer comprá-lo na hora. Com O olho não foi diferente. Os livros do autor raramente esperam muito tempo na estante. Não consigo vê-los ali tristes…

O olho conta a história de Smurov que vive em Berlim vindo da Rússia. Trabalha como tutor de dois meninos gêmeos – de quem não parece gostar muito. A vida dele parece ser não apenas pacata como também sem gosto. Ele se torna amante de Matilda – uma amiga da família com um marido que ela descreve como “um nobre bruto e ferozmente ciumento.” Para qualquer um, isso deveria ser um sinal de que é melhor ficar longe para evitar a fadiga. Mas não para Smurov.

Claro, o que a gente imagina acontece: o marido dela descobre e vai resolver a situação na porrada. Ou melhor, na bengalada. (Essas cenas têm um teor cômico e ácido bem bom).

Humilhado, Smurov decide que a única coisa que lhe resta é se matar. Ele tenta se matar com um tiro na cabeça e acorda em um hospital. Se ele está mesmo morto ou não, não é mais o debate. A história de Smurov toma um rumo diferente a partir daqui.

Os livros de Nabokov contam histórias da natureza humana e têm uma estrutura narrativa muito parecida: as histórias são narradas por personagens inseridos no contexto de alguma forma. Normalmente, alguém conta sua própria história em primeira pessoa. Em O olho, ele muda um pouco essa estrutura: o narrador, como se matou, narra a sua própria história ora em 3a pessoa, como se estivesse vendo todos os acontecimentos de sua vida através de uma janela, ora em 1a como se a lembrança fosse vívida demais.

Me lembrou a estrutura narrativa que vemos em Memórias Póstumas de Brás Cubas, em alguns momentos. Smurov teve algumas decepções amorosas mas nenhuma parece ter sido maior do que a que Vanya lhe presenteou: “O que eu precisava de Vanya eu jamais poderia, de qualquer forma, tomar para meu uso e posse perpétuos, como não se pode possuir a cor da nuvem ou o perfume da flor. Só quando finalmente me dei conta de que meu desejo estava fadado a permanecer insaciado e que Vanya era inteiramente criação minha, foi que me acalmei e me acostumei com minha própria excitação, da qual eu extraíra toda a doçura que um homem pode possivelmente obter do amor.”  Só que ele parece perceber o que deu errado de verdade apenas quando consegue analisar sua vida de outra maneira (sentiu a vibração Brás Cubas?)

Todo mundo, de vez em quando, tem aquela vontade de ser uma mosquinha para poder ouvir uma conversa cujo assunto pode ser você mesmo. Smurov leva essa vontade a um nível de necessidade narcisista e precisa saber desesperadamente o que todos pensam sobre ele. E o resultado não é muito agradável.

O livro é curto (107 páginas) e tem aquela qualidade Alfaguara linda de ver. Junte a isso a escrita maravilhosa de Nabokov e você tem um livro para se ler em um dia com conteúdo para mais de semanas. Se você ainda não leu nada de Nabokov, começar pelo O olho não seria ruim. De fato, ler qualquer coisa do Nabokov já é um ótimo uso de tempo. 😀

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2 Comentários em “Resenha – O olho”


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Henrique em 02.10.2013 às 13:21 Responder

acabo de ler o livro e é realmente excelente! E ainda ri muito.
É a primeira coisa que leio do Nabokov, e to maravilhado pela sensibilidade, ‘deboche’, acidez, doçura, muito bom!

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Paty em 02.10.2013 às 13:23 Responder

Olha Henrique, eu sou suspeita para falar porque não consegui achar uma coisa de Nabokov que não gostei ainda.
Cada vez que leio uma coisa dele, gosto mais! =D
E concordo com vc, a sensibilidade dele fica na pele. Ler Nabokov é uma delícia.


 

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