Resenha – O outro lado do poder
por Patricia
em 28/11/12

Nota:

Hugo Abreu foi chefe do gabinete militar de Geisel (de 1974 a 1978). Só isso já deve te dizer o foco desse livro. Logo na introdução ele nos explica seus motivos para sair do Governo e escrever o livro: Abreu percebeu que havia um grupo de pessoas que se aproximaram deliberadamente de Geisel para defender interesses próprios:

“Minha pretensão é alertar a Nação contra o perigo que representa a presença, nos altos escalões do poder, de um grupo oligárquico que nele pretende perpetuar-se, lançando mão para tanto, como tem lançado, de todo e qualquer meio a seu alcance. E, ao alertar a Nação para os perigos a que está sujeita, eu a convoco para retomar o domínio de si mesma.”

Abreu se tornou Chefe do Gabinete Militar  de Geisel quando os militares acreditavam que estavam ocupando o poder até a próxima opção viável surgir – mas não sabiam exatamente o que seria.

Fica claro que a maioria dos militares acreditava que estava fazendo um favor ao País ao assumirem o poder com toda  a arrogância que isso representa. O nacionalismo quase pinga das páginas. Os militares viam o potencial brasileiro de ser um grande país – algo que, infelizmente, parece ter se perdido em alguns governos democráticos e em parte da população (o que ainda não é uma justificativa plausível para o que impuseram àqueles que eram contra o Governo).

Abreu estava presente em um dos momentos mais importantes do desenvolvimento do Brasil. O começo da década de 70 que ficou conhecido como o “milagre econômico” – quando o país crescia a porcentagens que hoje apenas a China alcançaria. O Governo Geisel começou no final desse momento e viu a oposição crescer. As revoltas estudantis aconteciam em todas as grandes cidades e Abreu explica que o Governo tentava resolver a questão sem violência e procurando opções dentro da lei para agir (hoje sabemos que isso raramente era o caso, na prática). Esse já era um sintoma da leve abertura que Geisel começou rumo à democracia (quer ele soubesse disso ou não).

Abreu começa, então, a nos contar sobre os problemas que teve com o Governo na época. O grupo de “conselheiros” de Geisel decidiu que o General Figueiredo seria o indicado para as “eleições” que se aproximavam. Com a oposição cada vez mais forte, o Governo chegou a fraudar algumas eleições regionais para garantir que o Arena conquistasse as cidades mais importantes do país. Foi aqui que Abreu chegou ao limite, segundo ele.

Mas quero dividir com vocês o que esse General, do periodo da Ditadura, acredita que aconteceu em 78: “As eleições de 78 representam o maior esbulho da vontade popular que já aconteceu no Brasil depois de 1930. Trata-se de um retrocesso perigoso. É a desmoralização das nossas instituições democráticas. E o que virá depois disso?”

É. Respirem fundo. Esse tipo de comentário permeia todo o livro. Abreu se refere ao Brasil como uma democracia diversas vezes ainda que comente momentos em que “conversou” com jornais para evitar a publicação de determinadas notícias (censura? sim ou com certeza?) e de como o país perdeu a ajuda militar dos EUA por não seguir as normas básicas de Direitos Humanos, para citar só alguns exemplos. (Democracia, pero no mucho!)

O mais interessante, para mim, foi descobrir que  a maioria do exército – segundo Abreu – não aprovava e muito menos gostava de Figueiredo. A escolha do Presidente se deu pura e exclusivamente por influência desse grupinho que tinha cada vez mais poder chegando ao ponto de colocar escutas ilegais nos telefones de outros membros do Governo. Figureiredo era, segundo Abreu, “inteiramente despreparado para a função, além de fraco intelectualmente e de pouca cultura.”

Abreu defendia que um civil deveria ser escolhido para assumir a Presidência facilitando a retirada dos militares no poder e abrindo o caminho definitivo para a redemocratização do país. Obviamente que ele se contradiz aqui…se já éramos uma grande democracia, o que seria a redemocratização?

O livro é bem escrito e cheio de detalhes que as aulas de história não cobriram e nem teriam com já que grande parte das informação foram e ainda estão censuradas. Ainda assim, partes da leitura podem se tornar maçantes pela repetição de alguns assuntos e a pura chatisse que é tentar entender a burocracia militar. Além, claro, da irritação que é ver alguém tentar defender o indefensável. Mas indico o livro para quem gosta de estudar o assunto. Com certeza é um livro que deixa uma pulga atrás da orelha e um gostinho de “preciso saber mais”. Mas não se deixe enaganar pelo título: não estamos falando do “outro” lado de verdade, apenas do mesmo lado….só contado por alguém que discorda de algumas coisas mas continua cego para outras.

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2 Comentários em “Resenha – O outro lado do poder”


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Onono em 05.02.2015 às 22:34 Responder

Você deveria incluir na resenha que o gal. Hugo de Abreu foi preterido ao cargo de presidente da república em favor do gal. João Figueiredo.

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Daniel Cândido em 07.05.2016 às 09:15 Responder

Este é mais um dos livros o qual demostra que a trapaça é algo marcante nas instituições brasileiras, em todos os degraus. Suborno, mentira, lei do silêncio: seguir este protocolo é a regra para sobreviver nessa selva chamada “democracia”, onde todos querem garantir sua fatia. Tudo isto para conquistar influência.

Bem vindos ao imperialismo da corrupção.


 

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