Resenha – O progressista de ontem e o do amanhã
por Bruno Lisboa
em 24/10/18

Nota:

Mark Lilla é um renomado jornalista americano e escreve para o New York Times. Seus ensaios, geralmente, abordam temas ligados a política. Mas recentemente ele se tornou o “inimigo público número 1” devido ao conteúdo presente no artigo “O fim do liberalismo identitário“, no qual critica severamente a era Trump e o seu (des)governo de extrema-direita. No mesmo texto também aponta erros que impedem que governos de centro-esquerda ganhem eleições. Estas reflexões acabaram por gerar o livro O progressista de ontem e o do amanhã.

Lançado este ano pela Companhia das Letras, na obra Lilla problematiza a política norte-americana focando, principalmente, nos EUA pós-segunda mundial até o presente. De lá para cá, a política local sofreu drásticas mudanças, principalmente quando no campo social e o embate entre as políticas adotadas por democratas e republicanos.

Partindo do sentimento de nação e euforia após a vitória 2ª guerra, abriu-se um precedente para que governos democratas passassem a olhar mais para o cidadão comum e assim, gradualmente, implementassem políticas que visavam a diminuição da desigualdade em vários aspectos. São desta época muitas das conquistas ligadas aos negros e as mulheres. Mas as crises econômicas, principalmente após a derrota na Guerra do Vietnã, fizeram com que as pautas sociais perdessem espaço. Com a chegada da era Reagan e a propagação dos ideais do estado mínimo, fez com que o individualismo tomasse conta e o sentimento de nação fosse esvaziado. Desde então é este ideário que está presente na maioria dos cidadãos norte-americanos e de grande parte das nações hoje.

Mas por que pautas sociais tem perdido força nos EUA?  Para Lilla a razão é simples: se um governante (democrata) diz que tem como ponto central de seu plano de governo pautas ligadas as minorias (mulheres, imigrantes, negros…) soa para o eleitor comum, que não faz parte destes grupos, que o possível líder quer somente governar para eles. Outro ponto de vista do autor é que, geralmente, quem faz parte das minorias tende a defender veementemente a sua causa e tende a esquecer as outras ao seu redor. E esta situação fez com que a voz dos republicanos crescesse por demais e desse espaço a Trump, governante controverso que detém políticas ligadas a privilegiados e opiniões polêmicas.

Mas se este é o cenário como podemos revertê-lo? Para o autor está na hora de governos de centro-esquerda pararem de colocar em evidência pautas direcionadas as minorias e voltarem as atenções a planos de governo que potencializassem o todo. Como Lilla pondera não é necessário abandonar estas pautas, mas é preciso num primeiro plano vencer eleições para que se consiga voltar a adoção de práticas que visem diminuir a desigualdade que, desde a era Trump, tem crescido de forma exponencial.

Didático, simples e direto ao ponto, por mais que O progressista de ontem e o do amanhã traga uma reflexão sobre a política norte-americana atual, a obra espelha bem a atual situação em que vivemos onde de um lado temos Jair Bolsonaro e do outro Haddad. O primeiro é uma autêntica ode aos republicanos norte-americanos, pois defende o armamentismo, a adoção do estado mínimo, o autoritarismo, entre outros tantos pontos negativos, que tem como objetivo a governança para pequenos grupos da sociedade, tudo em prol do Deus mercado. Já o segundo tem como a defesa da redução das desigualdades e que para isso cabe ao estado trabalhar para que o cenário mude, visando manter a democracia em que estamos.

O progressista de ontem e o do amanhã deixa clara a periculosidade de adoção dos caminhos da extrema-direita, mas como vemos por aqui (e no mundo) a nação está mais interessa em olhar para os seus próprios umbigos do que vislumbrar melhorias para a sociedade como um tudo. Mas devemos seguir lutando.

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O livro foi enviado pela editora.

 

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