Resenha – O quarto de Giovanni
por Juliana Costa Cunha
em 14/12/18

Nota:

O Quarto de Giovanni foi publicado em 1956 nos Estados Unidos, após um longo período sendo rechaçado pela editora com a qual James Baldwin, o autor, tinha contrato. O argumento era que o livro em questão fugia muito das questões raciais, sobre a qual Baldwin, sendo ele um escritor negro, havia se dedicado anteriormente. Porém, o que se evidencia ao longo dos anos é que o livro demorou a ser publicado porque sua história narra a relação afetiva entre dois homens – Giovanni e David.

David é um americano burguês que, fugindo das garras do pai e das severas leis conta a homossexualidade nos EUA (considerada crime na época), vai morar em Paris. Nesta cidade, conhece sua boemia com seus bares frequentados por homens em busca de álcool e sexo. Num desses bares, David conhece Giovanni e imediatamente os dois passam a se relacionar e a conviver no mesmo quarto – o quarto de Giovanni.

É importante dizer que a edição da Companhia das Letras trás uma introdução escrita por Colm Tóibín que contextualiza a história narrada e que eu sugiro que seja lida ao fim do livro, pois contém spoiler. Eu, gata escaldada, sempre leio Introdução ou Prefácio quando termino a leitura. Sinceramente acho que as editoras poderiam optar sempre por um Posfácio, quando a intenção for fazer uma análise mais aprofundada do texto, como é o caso aqui. E que é muito boa, vale ressaltar. Ao final do livro temos ainda Hélio Menezes e Márcio Macedo, cada um com um texto bem bacana discorrendo sobre o autor, sua obra e sua personalidade. A editora caprichou nesse aspecto.

É nestes textos que nos deparamos com informações preciosas sobre a obra e a vida de Baldwin que contextualizam muito bem a história que acabamos de ler. O Quarto de Giovanni, apesar de ser escrito por um autor negro e que, até então havia escrito prioritariamente sobre questões raciais, além de fugir a este tema, traz na história apenas personagens brancos. Isso fica muito evidente já no primeiro parágrafo do livro. Aqui sabemos que O Quarto de Giovanni foi entregue à editora após a publicação de Go Tell It on the Moutain, cuja história se passa no Harlem e trata da experiência afro-americana. Sobre esta questão o autor afirma “Eu certamente não conseguiria – naquele momento da minha vida – lidar com outro grande peso, o ‘problema do negro’. A questão sexual e moral era difícil de trabalhar. Eu não teria como tratar das duas no mesmo livro. Não havia espaço para isso.”

Na minha humilde opinião o espaço que o autor afirma não haver é o espaço emocional e não o de sua capacidade intelectual para dar conta dessas temáticas num único livro. O texto de Baldwin é recheado de dados autobiográficos. Em novembro de 1948, ele foi morar em Paris aos 24 anos, conhecendo lá um jovem chamado Lucien, por quem se apaixonou. Dois anos após O Quarto de Giovanni estava pronto.

O quarto, esse lugar estabelecido com tanta força no livro, funciona tando como cenário, já que era a moradia dos personagens, como metáfora para a relação e para a condição de homossexual do personagem. É nesse quarto onde ele sempre quer estar e de onde sempre quer fugir. David tem um compromisso com Hella, a quem faz proposta de casamento e tenta se desvincular de seus desejos homoafetivos. Para mim Hella tem um papel importante na história, mas não como afirmação da bissexualidade do personagem como sugere a contracapa do livro, mas sim como a negação de sua homossexualidade. Aquela da qual ele não consegue fugir.

Outra questão que para mim, diferentemente do que as editoras à época apregoavam, é que o livro trata sim das questões de raça, classe e gênero. Hella é uma mulher à frente de seu tempo. O quarto, olha ele de novo, também funciona como cenário para a domesticidade, para o domínio da mulher (e nele viviam dois homens). Todos os personagens são caracterizados por hierarquias sociais e relações de poder. Conflitos de gênero e sexualidade permeiam toda a história. Baldwin, sutilmente, falou em interseccionalidade muito antes deste termo ser utilizado pelo meio acadêmico.

Com todas estas questões envolvidas a leitura parece ser densa, não é? Pois fiquem sabendo que ela flui lindamente. O estilo confessional que o Baldwin usa, a narrativa em primeira pessoa, o personagem principal David, nos narrando sua história, suas dores e suas delícias, nos presenteia com uma narrativa muito próxima. Como se alguém estivesse a nosso lado contando a sua história.

Então, deixo vocês com a sugestão do Baldwin sobre seu livro. A história do livro é “menos sobre a homossexualidade, do que sobre o que acontece quando você tem tanto medo que acaba não conseguindo amar ninguém”.

Leiam!

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Livro enviado pela editora

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