Resenha – O que o sol faz com as flores
por Patricia
em 22/03/18

Nota:

Ano passado li Outros jeitos de usar a boca de Rupi Kaur – poetisa de 20 e poucos anos, nascida da Índia e radicada no Canadá. Gostei dos poemas e da forma como Kaur aborda temas que são complexos. Usando uma estrutura simples, sem rimas e pontuações, ela fala de dor, trauma, amor, relacionamento, família, raízes e ser mulher.

Ao ler sua segunda obra “O que o sol faz com as flores”, já conhecendo o estilo de sua escrita e os temas abordados e sem a impressão do “novo”, senti que faltava algo. Os mesmos temas são encontrados nesta segunda obra e alguns são explorados um pouco mais do que no livro anterior. Há todo um capítulo, por exemplo, dedicado a discutir família e raízes. Kaur fala muito sobre a força de sua mãe que teve um casamento arranjado, de acordo com os costumes punjabi, e cuidou das filhas enquanto o marido ia tentar construir uma vida melhor no Canadá. Por anos, eles viveram separados por um continente até que o pai pudesse recebê-las e, assim, formarem uma família novamente.

É nesta obra também que Kaur fala de forma mais aberta sobre seu estupro. E justamente este poema, talvez o melhor do livro todo, foi que me fez entender o quanto, no geral, a poesia dela tende a ser um pouco mais genérica. Por este ser o que me pareceu seu poema mais íntimo, imediatamente contrastou com os demais. Pode ser que estamos vendo uma poetisa entender como lidar com suas próprias questões pessoais para, só então, compartilhá-las. Esses poemas que tendem a sair de sua forma padrão sendo mais longos, mais como textos completos, são muito melhores do que alguns curtos que parecem frases de auto-ajuda ou algo que escrevemos em um post it para não esquecermos.

Saber que ela é capaz destes textos me mostrou que, talvez, começar com textos mais genéricos, mais simples, objetivos e diretos, possa ser uma maneira de se abrir aos poucos a um mundo que já te machucou antes. Não muda o fato de que gostei de “Outros jeitos de usar a boca”, apesar de ter lido críticas bem mistas sobre a obra.

Em um artigo publicado no PN Review intitulado “O culto do nobre amador”, a poetisa Rebecca Watts enfatiza que a habilidade de atrair o público não significa que algo seja intrinsecamente bom. O exemplo que ela cita é Donald Trump. Ela fala também sobre como a internet tende a “idiotizar” as pessoas fazendo com que percamos o contato com nuance e interpretação enquanto questiona se “honestidade” virou o padrão para a poesia transformando o gênero em algo, obrigatoriamente, confessional e diluído ao extremo. O leitor está morto, todo conteúdo é gerado com foco no consumo e na gratificação instantânea.

O uso de um termo como “populista” e a divisão que essa conversa pode levar, me lembra muito a maneira como, recentemente, tudo parece ser dividido em direita e esquerda, certo e errado, bom e ruim em um eterno”flaXflu”.

Tudo isso me fez questionar se simplicidade é sinônimo de ruim ou se o fato de algo ter uma estrutura diferente da esperada, imediatamente transforma esse algo em menos importante do que aquilo que veio antes. Estamos em uma época em que textões de facebook viram livros, youtubers viram autores e que, em uma sociedade que busca alívio rápido, se alguém te ouvir por muito tempo – ou te ler por 25 minutos – faz você digno de algo. Forma e conteúdo seguem sendo importantes, mas também se adaptam aos tempos. Assim como o público. Se temos que nos atentar a nuances, como Watts enfatiza em seu artigo, também é importante lembrar que ela pode existir mesmo na poesia e no conteúdo que alguns considerariam “ruim”.

Na resenha de sua primeira obra, digo que Rupi Kaur é uma poetisa de seu tempo. Ela reproduz em seus textos aflições de forma simples o suficiente para que sejam palatáveis para uma grande audiência que ainda parece buscar sua própria voz. Mas também palatável o suficiente para ser criticada por simplificar temas que são mais complexos. “O que o sol faz com as flores” segue essa mesma dicotomia. Para o bem e para o mal.

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