Resenha – O rei das sombras
por Juliana Costa Cunha
em 19/08/19

Nota:

Javier Cercas é um autor já consagrado no meio literário contemporâneo e um dos autores mais referenciados na literatura espanhola atual. Este foi meu primeiro contato com sua escrita. E foi possível para mim constatar sua potência narrativa, embora tenha me enfadado em muitas passagens.

Em O Rei das sombras o autor aborda um de seus temas recorrentes, pelo que pesquisei – a guerra civil espanhola. O fio condutor da narrativa é a história de seu tio-avô Manuel Mena, que fez parte das tropas falangistas a partir de 1936, vindo a falecer com apenas 19 anos em 1938 na batalha do Ebro. Esta época foi o período inicial das batalhas sangrentas da guerra civil, culminando em 1939 com a vitória do grupo nacionalista que colocou Franco no poder e o posterior golpe de estado, instaurando um longo período de ditadura, até 1975, que só terminou após a morte do ditador.

Ao longo do livro Javier nos demonstra seu desconforto com a história de sua família neste período conturbado da Espanha e, principalmente, seu receio em contar a história deste parente que partiu para lutar por uma causa que, hoje sabemos, deixou marcas na história daquele país que jamais serão apagadas.

O autor escolhe duas linhas narrativas: uma que nos conta seu percurso até conseguir assumir que deveria escrever o livro e contar a história de seu tio-avô, de sua família, de seu povoado – Ibahernando e a sua própria história. E a outra linha nos conduz pela narrativa da pesquisa documental da curta vida de Manuel Mena, seus últimos dias no povoado, até ingressar nas tropas falangistas, seu percurso na batalhar, até sua morte.

Essa segunda linha narrativa se tornou muito massante para mim. Javier tem um certo preciosismo em narrar os fatos e apresentar os documentos que comprovam a história que está narrando. Que, em certa medida, não tem nada de mais. Ou seja, Manuel Mena não foi um herói. Não tem uma história grandiosa para ser narrada.

Talvez seja aí que o livro me pega. Ao me dar conta que a personagem principal não é o tio-avô do autor que partiu para a guerra, mas sim o próprio autor. E ao longo das páginas do livro isso vai ficando mais evidente para nós que lemos e também para o autor. É bonito perceber isso. É bonito perceber que Javier vai se dando conta que escreve a história de Manuel Mena para se encontrar em sua própria história e perdoar o passado de sua família.

Este livro, apesar das partes que para mim foram enfadonhas, me deixou com vontade de ler outros livros do autor. Quem sabe o próximo não seja o A velocidade da luz?

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Livro enviado pela editora

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