Resenha – O Retorno
por Juliana Costa Cunha
em 01/07/19

Nota:

Antes de falar sobre o livro da Dulce, eu gostaria de contar como esse livro chegou até minhas mãos. De uns tempos pra cá tenho pensado muito no consumo de livros e também em como fazê-los circular mais. Daí que me propus a praticar o desapego com aqueles livros de minha estante que já li, estão em ótimo estado de conservação, mas que ficam lá na estante e eu não vou ler mais. Desta forma fiz meu cadastro no Skoob e venho trocando muitos livros por lá (está fraquinho no momento, pois preciso parar e separar outros tantos).

Não satisfeita, me propus a emprestar livros. É, eu sei, é um grande risco. Posso perder um livro querido, etc. Já pensei em tudo isso. Mas estou fazendo. E este livro da Dulce Maria Cardoso é o resultado do primeiro #emprestimoliterario do @coisasqueleio, meu perfil no Instagram. Eu moro em Recife e emprestei, para uma seguidora querida, o meu Caderno de memórias coloniais da Isabela Figueiredo, que mora no RJ. Ela também entrou na brincadeira e me emprestou O Retorno. Além de tudo, nos emprestamos livros com a mesma temática – a “colonização” de Angola e sua descolonização na década de 70.

Em O Retorno a autora nos apresenta Rui, um adolescente retornado que se vê tendo que recomeçar sua vida em Portugal, junto com a irmã e a mãe, sem a presença do pai e morando com outras famílias num hotel que recebe, também, outras tantas famílias de retornados.

Estamos em 1975 e, após a Revolução dos Cravos, Portugal perde suas colônias em Angola, recebendo em poucos meses mais de meio milhão de retornados. E Rui, o narrador da história, nos conta da sua vida em Luanda e também de sua chegada e adaptação em Portugal.

A escrita lírica da autora nos faz passear por todos os sentimentos de Rui – alegria, dor, saudade, insegurança, desespero, não pertencimento. A gente fica junto com Rui esperando a volta do Pai. A gente segue com Rui pela revolução. A gente sente saudade de Luanda.

É importante salientar aqui que a autora nos apresenta uma narrativa a partir de um adolescente que nasceu em Luanda e que se viu em meio ao caos, sem ainda ter compreensão de tudo o que havia acontecido antes de seu nascimento, para poder entender o que se dava na atualidade.

Não percebi em nenhum momento romantização por parte da autora do processo brutal de “colonização” de Portugal em Angola. Assim como também não percebi romantização com aqueles que perderam tudo, tendo que sair às pressas de um país que estavam certos de ser seu. Rui nasceu em Angola. Então, não é ele propriamente um retornado. Seus pais sim.

Dulce é ela mesma uma retornada. Nasceu em Portugal em 1964, indo morar em Luanda aos seis meses de vida. Voltou a Portugal em 1975, na ponte aérea criada entre os países para conseguir retirar as pessoas de Luanda, depois que a guerra civil estava estabelecida por lá. Há no livro, portanto, momentos vividos pela autora. Quem sabe ela mesma não seria Rui em alguns momentos? É muito significativa na história contada esse trecho da ponte aérea. O tumulto, o desespero, o deixar tudo para trás para garantir as próprias vidas.

É um livro belíssimo que abriu com chave de ouro meus empréstimos literários e que me deixou com muita vontade de ler mais livros da autora. Que venham mais.

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